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Wanderley Nogueira: “No rádio, basta um telefone para contar o fato ao mundo”

* Publicado originalmente no site da Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão)

Wanderley Nogueira recebe trofeu ACEESPCom 36 anos de carreira, o repórter Wanderley Nogueira vivenciou no rádio as grandes transformações tecnológicas, incluindo o advento da internet.  As novas ferramentas da web impulsionaram o trabalho deste jornalista de 62 anos para além das ondas radiofônicas. Hoje, ele navega com desenvoltura em sites  (www.wanderleynogueira.com.br), blogs e redes sociais.

Para ele, as novas tecnologias são importantes, mas não dispensam os atributos de um bom profissional. “O rádio avança com a tecnologia. Mas o profissional tem que ser competente, caso contrário, não vai conseguir usufruir de tudo aquilo que ele tem nas mãos”, afirmou em entrevista à Abert, pela passagem do Dia do Repórter, celebrado no último sábado, 16.

Nogueira entrou na rádio Jovem Pan em 1977 para cobrir esporte. Nos mais de 35 anos que trabalha na emissora, participou de praticamente todos os grandes eventos esportivos, inclusive dez copas do mundo.

O decorrer do tempo não tirou o entusiasmo do repórter já veterano, que fala do rádio com a mesma paixão dos primeiros tempos. “O rádio é um fantástico prestador de serviço. Costumo dizer ele tem uma velocidade imbatível. Em determinadas situações emergenciais, basta um telefone pra contar o fato ao mundo. Tem um passado maravilhoso, um presente extremamente importante, e vai continuar sendo fundamental no futuro”, declara.

Confira os principais trechos da entrevista.

O que significa ser um repórter de rádio?

A primeira impressão que fica de um repórter de rádio é a vocal, pois ela não consegue enganar.  Na minha opinião, o repórter de rádio tem que ter um bom vocabulário e poder de observação. Não deixar escapar nada. Naquele momento em que está ocorrendo o fato, ele é o olhar do ouvinte. No rádio, você tem que dizer tudo: como está o clima, o cenário em que se encontra, a sensação do momento e, claro, retratar o fato de forma efetiva.

Do que você mais se lembra do início da sua carreira?

Sempre tive muito desejo de trabalhar em rádio. Ainda quando garoto, eu simulava algumas transmissões e entrevistas de esportes, política e polícia. Em determinado momento da minha juventude, tive a oportunidade de trabalhar em jornal. Logo depois surgiu uma chance de trabalhar em uma rádio pequena; primeiro fazendo boletins de São Paulo para o interior do estado. Consegui transmitir notícias de 10 campeonatos mundiais, olimpíadas. Cobri terremoto, carnavais, corridas de São Silvestre, incêndios dramáticos. Consegui fazer tudo no rádio e no jornalismo, e continuo atuando diariamente. Sempre fui muito feliz na carreira, que foi marcada por momentos e coberturas inesquecíveis.

O que diferencia um jovem repórter de rádio hoje de um veterano?

Evidentemente, a tecnologia mudou inteiramente. Eu consegui viver e estou vivendo todas as mudanças e transformações. Por exemplo, usávamos enormes gravadores, agora dispomos de microgravadores. Com a internet, o envio de matérias se tornou mais fácil e mais rápido para o repórter. Dificilmente ele não consegue passar o material para a redação.  Quanto aos equipamentos, a qualidade de som melhorou muito. Acho que aprendemos todos os dias, os veteranos e os jovens. É uma troca permanente de informações.

Como você atravessou as transformações tecnológicas?

Com muita facilidade. O meu trabalho sempre foi muito intenso, diário, com muitas viagens. Então tive que me adaptar muito rapidamente, até pela necessidade absoluta.  Teve uma viagem, por exemplo, que não existia a possibilidade de usar celular. Na viagem seguinte já comecei a usá-lo. A maneira de passar o material, naquela época, era por telefone fixo. Aí chegou a internet.

Na sua opinião, a tecnologia muda a essência do trabalho do repórter de rádio?

Ajuda muito. Acredito que agrega qualidade, mas é evidente que existe o fator humano, a boa qualidade do profissional , a boa carga de informações que ele tem. O profissional tem que ser competente, caso contrário, não vai conseguir usufruir de tudo aquilo que ele tem nas mãos como instrumento.

Como você vê o futuro do rádio?

O rádio avança com as novas tecnologias. É um fantástico prestador de serviço. Nenhum outro meio tem condições de prestar serviços como o rádio. É fundamental na vida de todo mundo. Costumo dizer que o rádio tem uma velocidade imbatível. Em determinadas situações emergenciais, basta um telefone pra contar o fato ao mundo. O rádio tem um passado maravilhoso, um presente extremamente importante, e vai continuar sendo fundamental no futuro.

Qual a história que você destacaria de sua carreira como repórter do rádio.

Me lembro muito da Copa do Mundo de 1986, no México. O Brasil, como sempre, era um dos grandes favoritos e os mexicanos amavam o Brasil. E em um determinado momento deste campeonato, a seleção foi jogar com a França. Como grandes favoritos, os brasileiros atraíam todas as atenções. Eu estava na porta do estádio transmitindo a chegada do time brasileiro. A seleção chegou em um ônibus prateado, escoltado por dois carros da polícia mexicana na frente, dois atrás, três motociclistas na frente e três atrás, e ainda um helicóptero. Foi um desembarque portentoso, com aquela multidão de fora, aquela efervescência toda. Tinha Sócrates, Zico, Paulo Roberto Falcão, era um sucesso. Mas no jogo o Brasil foi eliminado. Na saída da seleção brasileira, não havia mais os carros da polícia mexicana, só ficou um batedor. O helicóptero também não estava mais lá, e os apaixonados torcedores estavam sentados na calçada, chorando. Ali tive a nítida clareza de como é a chegada de um time que poderia ser carregado nos ombros e  a saída do derrotado, quase que abandonado até pela escolta. Aquele cenário nunca me saiu da cabeça.

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