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Zico: agora mais confiante

* Publicado na Gazeta Esportiva de 10/06/1982

SEVILHA (De Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA)

Zico na Seleção BrasileiraEncostado num painel publicitário onde Pelé anuncia o café brasileiro e suas qualidades, Zico fala sério, como quem realmente sabe aquilo que está dizendo. Diz confiar na Seleção do Brasil e enaltece o trabalho feito até agora. Esta feliz por sentir bem fisicamente e garante que tecnicamente passa por um ótimo momento técnico.

Resolve então lembrar a Copa de 78:

“Foi uma experiência que jamais irei esquecer. Não recebi a orientação necessária e quis carregar o time nas costas. Não tinha estrutura para isso e admito que não fui bem.”

“Em muitos momentos quis resolver tudo sozinho e isso era impossível naquele torneio. Fui envolvido e permiti que algumas pessoas jogassem sobra as minhas costas a inteira carga de responsabilidade que a seleção tinha de ganhar o título.”

“As coisas iam bem e é claro que a tensão aumentava a cada momento. Não tive condições de sair daquilo tudo…”

Zico para de falar para ver um chute bonito de Batista, vencendo Waldir Peres. O maior nome do selecionado, coloca as duas mãos próximas dos lábios e grita: “Boa Barney, custou mas está acertando…”

Nos treinamentos cada vez que toca na bola o público aplaude e acredita que terá pela frente uma excelente jogada. Zico conquistou uma imagem positiva, através de muitos gols, dribles malucos. É um dos jogadores que mais possui contratos publicitários em todo o mundo. As empresas sabem que sua imagem é boa, que ele vende, que as crianças gostam e que os adultos admiram.

Zico anuncia brinquedos, roupas, eletrodomésticos, vitaminas, mas não aceita – a exemplo de Pelé – divulgar bebidas alcoólicas ou cigarros. Os pequenos espanhóis ficam olhando para o rosto de Zico como se estivessem hipnotizados. Os espanhóis gostam de bom futebol, seja ele de que país for.

“Eu tenho muita responsabilidade para com as crianças. Penso nos meus filhos e fico imaginando o que eles pensariam se ficassem decepcionados comigo. É a mesma coisa… um garoto que gosta do meu futebol, me admira, tem vontade de conversar comigo e não posso decepcioná-lo. Não seria justo para com ele e para com todos os outros que fazem de mim uma imagem agradável.”

EXEMPLO

Zico é considerado pelos jogadores como um verdadeiro exemplo de profissional. Apesar de estar numa situação magnífica ser considerado um ídolo, ter um contrato milionário, rendas paralelas e uma vida particular extremamente estabilizada, ele não diminui o ritmo de treinamentos, é um dos primeiros a entrar em campo e um dos últimos a deixá-lo.

“Acho que ninguém pode ficar parado achando que mão há motivos para continuar trabalhando. Admito que tenho sucesso, marco gols, mas isso tudo só pode ser conseguido através de incessantes treinamentos.”

“Não coloco pelo caminho do sacrifício, mas não é fácil permanecer sempre bem fisicamente, sem nunca entrar numa fase de comodismo. O homem é assim, quando as coisas não estão bem, ele tende a diminuir o trabalho naturalmente, e esse é o perigo…”

É comum nos exercícios físicos ele e Sócrates puxarem a fila de jogadores. É uma espécie de exemplo que ninguém pode deixar de levar em conta, principalmente os mais jovens. Pensam os dirigentes da seleção: “Se o Zico e o Sócrates fazem tudo porque os outros não iram segui-los…”

Quando Zico estiver entrando em campo contra a União Soviética o torcedor pode estar certo de que lá está um jogador muito mais experiente, vacinado contra grandes emoções e com muita vontade de disputar uma Copa do Mundo.

Jogará pelos mais variados setores do campo, fugirá das marcações, não terá receio das jogadas duras e além disso sua precisão nos arremates será muito mais acentuada.

Zico admite que esta será a sua Copa:

“Não posso esconder que tenho vontade de jogar muito bem na competição. É uma questão de provar alguma coisa. Tenho títulos nacionais, regionais, sul-americanos, mas não está completo. Quero mesmo é ganhar este título.”

“Estou vivendo há muitos meses ao lado de outros jogadores e posso garantir que todos querem a mesma coisa. Não há outro objetivo, todos irão se entregar inteiramente. Não é uma questão de vida ou de morte, mas profissionalmente ninguém desconhece o quanto isso importa numa carreira. É claro que a alegria do povo não pode ser esquecida. Seria uma espécie de recompensa por todo o apoio que os torcedores deram ao longo da preparação.”

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