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Waldir Peres: perto do momento maior

Waldir Peres: perto do momento maior

* Publicado na Gazeta Esportiva de 13/06/1982

Waldir PeresSEVILHA (De Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA) – Sob o comando do técnico Osvaldo Brandão, em 1975, o goleiro Waldir Peres jogou pela primeira vez na seleção nacional, contra o Peru, em Lima. Naquele dia, o Brasil venceu por dois a zero e começava então a carreira dentro de seleções daquele que hoje é considerado titular absoluto da posição, no gol da seleção de Telê Santana.

Foi um começo difícil, repleto de obstáculos, várias ações estranhas de companheiros, critérios incompreensíveis nas escalações e as falhas próprias dos goleiros: a entrada de bolas, na opinião de muita gente, defensáveis.

Hoje, com 31 anos de idade, Waldir é o mais velho do grupo. Restam poucos fios de cabelo e uma afoita funcionária do credenciamento insistia em não credenciá-lo: “Você não é jogador… vocês estão querendo brincar comigo, não é?”

A moça pensou que Waldir era membro da comissão técnica, talvez preparador físico, administrador, roupeiro ou responsável por alguma assessoria, mas goleiro não…

Waldir Peres sorriu esperou que o mal entendido fosse superado e respondeu com um autógrafo ao equívoco daquela espanhola linda e simpática, mas um pouco precipitada.

E ultimamente tem sido assim. Antes de sair do Brasil, Waldir teve que ouvir muitas vezes inúmeras pessoas clamando pela presença de um goleiro – Leão o mais buscado, esta na Espanha, mas como comentarista de um jornal gaúcho – ou muitos lutando para que qualquer um jogasse no gol, menos “esse Waldir Peres”. Os mais radicais iam fundo: “não sei o que o Waldir viu no Waldir, não tem pinta de goleiro, não inspira confiança…”

Mas essa não é a opinião de Telê e de todos os jogadores. Eles acreditam no goleiro Waldir Peres como atleta, jogador e homem. Waldir salvou a seleção do Brasil inúmeras vezes na viagem á Europa: França , Inglaterra e Alemanha – foi talvez o mais importante destaque do time, segundo palavras do próprio técnico Telê Santana. Mas é difícil ultrapassar certas barreiras.

“Admito que muitas pessoas contestam minha presença aqui na seleção mas quem escala é o Telê e a ele eu agrado. Não sou um goleiro perfeito pois isso não existe, mas nunca decepcionei ninguém. Absorvi experiência ao longo dos últimos anos, sofri gols incríveis, bolas defensáveis eu deixei passar, mas qual o goleiro que não passou por isso?”

“Se você conhecer um goleiro que não sofreu um frango, não deve confiar nele, pois irá tomar um dia e pode ser que seja num jogo decisivo.”

“De 75 para cá muita coisa aconteceu. Joguei, fui barrado, errei, acertei, defendi penalidades, fiz defesas milagrosas. Acho que formei uma estrutura de goleiro. Um goleiro se forma assim com falhas e virtudes. Estou aqui porque sou o melhor goleiro do Brasil. Quero jogar e vou jogar e se depender de mim o Brasil já é campeão.”

“Quando encosto a cabeça no travesseiro, aqui no Parador Carmona, lembro-me do instante em que quase parei de jogar futebol. As coisas foram se acumulando: eu treinando de ponteiro-esquerdo em seleções, sem a menor chance de jogar. Muito menos no São Paulo, a saturação se aproximando naturalmente.”

Mas Waldir resolveu reagir, resistir a tudo:

“Devo muito à imprensa. Ela alertou-me com suas críticas ressaltando a minha pouca disposição, talvez aceitando uma situação ruim para um profissional. Então dei um basta…”

“Disse, agora vai ser comigo… entreguei-me por inteiro aos treinamentos, busquei o maior aprimoramento possível e os resultados começaram a aparecer nos jogos. Defesas importantes, aplausos dos companheiros, elogio dos treinadores, a imprensa mostrando os meus bons momentos e o entusiasmo foi aumentado. Não sou nenhuma criança, mas fiquei feliz com a luz que começava a reaparecer diante de mim.”

“Senti que a Seleção não era algo impossível e que os critérios de Telê Santana eram justos. Fui chamado, treinei, ganhei a posição. Hoje, horas antes de uma Copa do Mundo, admito que a minha responsabilidade é muito grande. Sou goleiro da seleção que os computadores, os brasileiros, e os espanhóis mostram como favorita.”

“Claro que não posso falhar nessa Copa, aliás, quem pode falhar um dia?”

“Hoje, o futebol brasileiro está se aproximando de um instante maior. Será o início de mais um Mundial. Isso para o povo brasileiro é decisivo. Não creio que seja motivo de vida ou morte, mas sei que pode abater um homem que torce pelo seu time, pelo selecionado brasileiro.”

“Foram muitos meses de treinamentos, sacrifícios necessários para que um atleta fique com seus reflexos em ordem, que as possibilidades de falhas sejam mínimas.”

“Quando o Careca se machucou fiquei muito triste… Sei o que significa para um jogador ser cortado ou estar de fora de todos os planos de um treinador. Ele sente-se pequeno inútil, com vontade de abandonar tudo. Mas isso passa… Dias depois, com a cabeça mais fria o jogador começa a entender que para se chegar a um dia feliz, para se tocar numa taça, não há outro caminho a não ser aquele que apresenta inúmeros e surpreendentes obstáculos.”

“Contra a União Soviética a Seleção do brasil sabe que vai encontrar um futebol forte, com rápido contra-ataque e que uma falha poderá ser fatal. Depende só do nosso time…”

Waldir Peres demonstra muita frieza, e seguro, sorri quando os outros estão tensos. Oscar fala a este respeito:

“Há momentos em que não consigo entender como o Waldir pode ser tão frio… Isso é ótimo. Em momentos de pressão ou perigosos há de ter alguém que não se altere suas reações e Waldir é assim. Acho que o seu temperamento é o ideal para um goleiro, principalmente da seleção.”

“Estamos acostumados a jogar juntos e nos entendemos até por alguns olhares. Sei quando ele vai sair ou quando espera que um zagueiro corte a trajetória da bola. O Leandro, o Luisinho e o Júnior gostam de jogar com o Waldir  e todos os outros também.”

Waldir Peres, segundo o técnico de goleiro Waldir Joaquim de Morais é um dos goleiros que mais treinam no Brasil:

“Existem muitos dedicados, mas o Waldir treina até chegar próximo da exaustão. Ele faz questão de consumir todas as suas energias nos treinamentos e por isso nos jogos ele demonstra que está seguro e tranqüilo.”

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