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Oscar: “Careca comeu a carne do pescoço. Na hora do filé mignon, o azar”

Oscar: “Careca comeu a carne do pescoço. Na hora do filé mignon, o azar”

* Publicado na Gazeta Esportiva de 12/06/1982

CarecaSEVILHA (De Wanderley Nogueira, enviado especial para A GAZETA ESPORTIVA) – Oscar participou de todas as partidas do Brasil na Copa realizada na Argentina, em 78. É um dos jogadores mais frios do grupo atual, entretanto, não esconde que o mesmo os vacinados ficam tensos nos dias que antecedem o início de uma Copa Mundial:

“Já pensaram o que está rolando neste momento. o Careca? Deve estar passando por momentos terríveis. Tenho certeza que não está totalmente recuperado do golpe. Claro que como profissional deve entender que todos estão sujeitos a situações com a que ele enfrenta agora, mas todos são humanos e às vezes é impossível controlar os sentimentos.”

“O Careca treinou muito, comeu carne de pescoço e na hora do filé mingon, sofre uma contusão e não participa do jantar…”

“Talvez muitas pessoas não consigam entender realmente o que sente um jogador num momento assim, mas posso afirmar que não se pode desejar nem para o inimigo.”

“Eu estava perto, vi o Careca correr para a bola, tinha tudo para fazer o gol e então ele deixou que a bola passasse e imediatamente colocou a mão na coxa, e pelo gesto que ele fez eu disse logo que era distensão.”

“Todos os jogadores sentiram um frio na espinha. Aconteceu com ele, mas poderia acontecer com qualquer um. Um atleta está sujeito a isso e ninguém deve colocar dúvidas ao trabalho do preparador físico que é ótimo e eficiente. Foram raras as contusões musculares.”

“Depois das dores sentidas pelo Careca, outros problemas quase aconteceram: o Zico caiu, o Serginho bateu a clavícula, o Falcão levou um pontapé ocasional… Mas na verdade foram muitos sustos.”

Oscar coloca as mãos na coxa e começa a recordar que um jogador de futebol tem muitas barreiras pela frente se não possuir forças para ultrapassá-las, poderá até deixar o futebol:

“É uma espécie de teste, sabe… Muita gente pensa que é só treinar, só ter sorte e pagar. Mas não é assim não. Surgem contusões, pessoas maldosas, dias terríveis em que nada dá certo…”

“Quando voltei dos Estados Unidos poucas pessoas acreditavam que eu sentia dores na coxa e isso impedia que meus treinamentos fossem bons ou eficientes. Até que depois de um exame muito profundo foi constatado um problema na coxa e a operação no Hospital santa Catarina resolveu o problema.”

“Consegui agüentar muito temo aquela situação das pessoas, na maioria, não acreditando em mim. Estou dizendo isso porque o Careca tem que ter forças para superar este momento, dar a volta por cima. Ele tem 20 anos já absorveu enorme carga de experiência treinando, participando ativamente dos jogos realizados até agora, do estágio e Portugal e agora nestes dias, aqui na Espanha. A gente aprende alguma coisa todo o dia, não é?”

“Fiquei sabendo que ele irá ficar aqui coma gente e se isso ocorrer será muito bom. Será uma espécie de força moral para todo o grupo.”

Como zagueiro central, Oscar tem condições para falar de centroavantes:

“Com jogadores como Careca pela frente um zagueiro sempre te muitas dificuldades. Ele é hábil, tem criatividade e é difícil adivinhar o que realmente pretende. O Serginho é rompedor, sabe usar os braços como poucos, é veloz, ótima impulsão, está sempre no lugar certo e chuta muito forte. Sabe tocar, sabe tabelar, aliás, o Careca é ótimo nisso também.”

“Agora com o corte do Careca, chegará o Roberto e os estilos de Roberto e Serginho são mais ou menos parecidos. Claro que nenhum jogador é igual ao outro, mesmo quando são notadas poucas diferenças nas reações de cada um…”

“Se alguém negar um certo abatimento no elenco, após a contusão de Careca não estará sendo sincero. Não acredito que vá interferir no desenvolvimento do trabalho, mas não há como negar a tristeza que tomou conta dos jogadores, após a contusão que atingiu o Careca.”

Oscar pode ser considerado um líder dentro do grupo e é exatamente por este motivo que ele, nem mesmo Telê terminará o treino da última quinta-feira, correu para o vestiário para conversar com Careca. Desejou sentir o drama do companheiro de perto:

“Cheguei, coloquei a mão no seu ombro, conversamos um pouco e eu disse que a contusão muscular poderia atingir qualquer atleta. Não seria o fim de nada… que as coisas passam e que após a recuperação ele voltaria normalmente.”

“Naquele momento eu senti a gravidade, mas também não sabia se ele poderia se recuperar em tempo ou não. Torci pelo melhor. Mas no dia seguinte soube do corte, da gravidade contatado pelo doutor Neylor e fiquei triste.”

“Já ocorreu uma reunião de todos os membros da comissão técnica com os jogadores, esclarecendo o corte e a nova convocação. Foi uma conversa franca, quando todos demonstraram que realmente lamentaram o fato. Ficou ratificado que Roberto será muito bem recebido, afinal, aqui ele só tem amigos e é um ótimo jogador. Todos estão conscientizados de que o que aconteceu com o Careca não pode abalar e nada a moral, a força do grupo, não pode afetar em nenhum momento o rumo ao objetivo final que é a conquista.”

“Acho até que será um motivo a mais para se chegar ao titulo. O trabalho vêm sendo realizado há muitos meses, longas concentrações, longe da família, tentando corrigir defeitos, deficiências, absorver coisas boas das outras seleções, aproximar as nossas virtudes e não pode diminuir agora, seja qual for o motivo.’

“Tenho certeza, pelo o que conversei com o Careca, que seria o maior presente que ele poderia receber dentro de 30 dias; uma conquista mundial. Ele participou do grupo, ajudou a construir o ambiente, fez novos amigos disputou a posição com Serginho de maneira leal e ótima para a seleção. Acho que ele foi e é tão útil quanto aqueles que aqui estão continuando o trabalho. O sucesso de um plano se faz com todos, com os que vão em frente e com os que param pelo caminho, por motivos alheios à sua vontade, como é a caso de Careca.”

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