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Juary – Um brasileiro na Itália

Juary – Um brasileiro na Itália

(05/07/1980) O futebolista brasileiro ficou esquecido pelo mercado italiano. Uma lei interna impediu por muitos anos a contratação de jogadores estrangeiros. A passagem de profissionais brasileiros pela Itália foi positiva. Começando com Nininho – campeão mundial em 1934 -, dezenas de jogadores foram contratados pelos clubes italianos, mas Júlio Botelho talvez tenha sido o de maior sucesso. Del Debbio, Chinesinho e Mazola, outros que representaram bem o potencial técnico do brasileiro, na Itália.

Da Pavunense para a Vila famosa

O desafio mexicano: uma vitória!

Nova missão: vencer na Itália.

A malícia, a criatividade, a ginga, e principalmente as alternativas técnicas do brasileiro sempre fascinaram o mercado italiano. Agora, com Juary, um experiente menino de 21 anos, o Brasil volta ao adulto futebol da Itália.

Muita coisa mudou na vida de Juary, desde os tempos de São João do Miriti, e das partidas da Pavunense F. C. uma agremiação amadora do Rio de Janeiro. Chegou a Vila Belmiro, sede do Santos de Pelé, com 16 anos, sozinho e já com responsabilidade de ajudar, e muito, a família.

Juary ficou com receio de ser dispensado pelo Santos, pelo físico franzino. Afinal, já, havia acontecido no Botafogo e no Fluminense do Rio de Janeiro.

Mas sua sorte foi que o Santos estava renovando o time, e orientado por Olavo ficou morando uma pensão. Passou pela “escolinha” e depois de ser artilheiro do time juvenil, foi efetivado no principal, em meados de 1977.

Quando conseguiu no seu primeiro contrato, 15 mil cruzeiros mensais, a primeira atitude foi buscar toda a família e ir morar na Avenida Pinheiro Machado, Mas a alegria foi truncada. Vendo o filho jogar pela televisão, a mãe – Dona Darci – morreu do coração.

A mãe nunca escondeu a sua mágoa pelas notícias de que se não tivesse sido contratado pelo Santos, Juary seria um marginal. Dizia abertamente: “Meu filho foi e é um trombadinha, mas na área. Na hora de marcar gols.”

Dona Darci, segundo Juary, ficou muito triste quando ele veio para Santos: “Larguei a sétima série, abandonei uma bolsa de estudos no valor de 100 mil cruzeiros, para jogar pelo Santos. Sempre sonhei, sempre curti o futebol.”

Aos poucos o futebol de Juary, foi mareando, foi agradando. No gramado suas corridas lembravam os piques dos antílopes nas planícies africanas. Sua velocidade é anormal em termos de jogador brasileiro.

Um goleador nato, com apenas 1,65 de altura.

Rápida ascensão, requintada técnica, Juary foi comparado aos mais habilidosos jogadores que passaram pela Vila Belmiro, de Pelé. Quando marcou três gols no goleiro Waldir Perez, sendo que em dois deixou Waldir caído no gramado, depois de dribles desconcertantes, não foram poucos os comentários que o compararam a Pelé: “Ele demonstrou a mesma calda do “Rei” na conclusão das jogadas.”

Entrevistado, filmado, abraçado, depois de ótimas partidas, Juary sempre sorridente, rosto de menino, olhos malandros, tentava impedir comparações: “Ora, eu tenho muito que aprender. Perto do Pelé, eu não sei absolutamente nada. O meu forte é a perna direita. A esquerda necessita de muito treinamento. Tenho boa impulsão, mas a precisão do cabeceio deve ser melhorada. Tenho virtudes, mas são muitas as falhas”.

De um instante para o outro começou o comentário: “Juary está mascarado”. Talvez isso tenha sido o outro grande golpe na vida de Juary. Ele não aceitou o fato: “Eu continuo o mesmo. Não sofri influência da badalação que aconteceu nos últimos tempos. Tenho conversado com o Pelé, com o Lira, com o Formiga e com o Pepe. Todos sabem que eu não sou mascarado.”

Mesmo contestando a acusação, Juary ficou arranhado e muita gente insistiu em reativá-la , de quando em quando.

Artilheiro temido e implacável, Juary continuou sua caminhada no Santos e no futebol paulista. Boas fases e alguns péssimos momentos técnicos.

Começou a namorar em Santos e alguns meses apenas, depois do primeiro encontro, marcou o casamento para novembro de 1979. A explicação era simplista: “Gosto dela, ela gosta de mim. Estou praticamente sozinho em Santos e preciso de um lar.”

Alguns companheiros pactuaram a idéia de Juary, mas outros reprovaram o futuro casamento e essa posição provocou um rompimento entre Juary e alguns jogadores, principalmente o “velho” Clodoaldo.

Este foi o início da saída de Juary, da Vila Belmiro.

Em 1979 ele mostrou pouca inspiração. Muito distante daquilo que criou no ano interior, Juary debitava os gols perdidos à falta de sorte. Os companheiros garantiam que a culpa era do “futuro” casamento.

Não havia mais ambiente para Juary continuar no Santos. Ficou magoado com “a interferência na minha vida particular” e pediu para ser vendido.

1 – Casou em novembro e no início de dezembro foi vendido para o futebol mexicano. O Universidad de Guadalajara pagou ao Santos, 13 milhões  de cruzeiros a vista. Para muitos a venda foi surpreendente e o Santos não deveria ter liberado o artilheiro. Outros, mais observadores entenderam que o cidadão Juary Jorge dos Santos Filho não tolerava mais ver o jogador Juary na Vila Belmiro.

Disse muitas vezes: “Entre o Santos e a minha mulher, eu fico com ela…”. Ameaçou até mesmo parar de jogar futebol.

Antes da viagem para o México, Juary demonstrou intenção de vencer mais um desafio: “Tudo na minha vida tem sido assim. De uma maneira ou de outra, estou vencendo. Espero ficar no México durante 10 anos, provocar minha independência financeira e ser feliz com a minha mulher longe daqui, sem a interferência de ninguém…”

Juary não escondia de ninguém que aquela viagem estava sendo forçada pela posição assumida por todo o elenco do Santos. Um elenco contra o casamento de Juary. Há exceções: “O Neto, o Fernando e o Pais, não mudaram comigo, mas os outros desapareceram…”

O ex-jogador do Santos não esquece que até a esposa ficou abalada emocionalmente: “Ela perdeu um filho. Ela também ficou abalada diante de tanta confusão…”

O fato de Márcia não ser negra, segundo Juary foi o que mais pesou na posição de muitos companheiros.

O autor do gol mais rápido em 1979 – aos 13 segundos da partida Santos e Palmeiras – ficou apenas oito meses no México. Muito pouco para quem sonhava permanecer 10 anos entre os mexicanos.

Juary esclarece que a mudança para o futebol italiano foi muito boa para o Universidad de Guadalajara e ótima para ele:

“Foram importantes estes últimos meses. O período foi um importante desafio. Minha vida conjugal foi ótima. Eu e Márcia nos estendemos muito bem, somos felizes. Verdadeiramente no México não fui um artilheiro, principalmente pela maneira tática do time. Era obrigado a recuar, marcar, e assim o trabalho de um centroavante fica prejudicado.”

“O Cabinho, outro brasileiro que está no futebol mexicano, foi pela quinta vez o artilheiro. Mas o time dele joga ofensivamente e as coisas ficam mais fáceis. Entretanto, um dos objetivos, que era ganhar dinheiro, eu consegui. Arriscaria mesmo dizer que guardei mais de que aquilo que reuni em todos os anos que passei no Santos.”

“Repito: aquilo que muitos não acreditavam, que era a felicidade do meu casamento com a Márcia, é um fato real, flagrante, e sinceramente sentimos que ganhará ainda maior intensidade.”

2 – A presença do futebol italiano foi surpreende para o jogador: “Sabia do interesse do Cruzeiro, do Botafogo e do próprio Atlético Mineiro. Até comecei a torcer para que a negociação acontecesse, pois continuo sonhando com a seleção do Brasil.”

“O Universidad pagou 480 mil dólares pelo meu passe. Uma oferta superior a essa, não é tão fácil de ocorrer. Então, estava já preparando as malas para viajar ao Brasil, em férias, quando surgiu a notícia do interesse do Avelino, dirigido pelo brasileiro Vinícius.”

“A indicação partiu do Sérgio Clérice. Nunca tive nenhum contato maior com o ex-técnico do Palmeiras. Apenas conversamos algumas vezes quando o Santos enfrentou a Ferroviária, pelo Campeonato Paulista.”

“O Avelino se propôs a pagar 550 mil dólares. A diretoria mexicana preferiu saber a minha opinião e diante daquilo que vou ganhar na Itália – cerca de 400 mil cruzeiros mensais – pedi para ser vendido.”

“O futebol italiano para mim é desconhecido. Dizem que é bem parecido com ao mexicano. Hoje sou muito mais experiente: 5 anos de Santos, meses no México, provocaram um amadurecimento no profissional e no cidadão Juary. É mais um desafio que vou procurar ultrapassar.”

“O saldo do balanço de minha carreira é muito bom. Sou jovem, em São Paulo fui artilheiro e campeão, servi a Seleção do Brasil e espero mostrar aquilo que o jogador brasileiro pode dar ao mercado da Itália. Sei que o Avelino não é uma grande força, mas tem um time competitivo.”

Um fato Juary faz questão de esclarecer:

“Quando deixei o Santos e o Brasil levei uma grande carga de mágoa. Hoje, muita coisa já foi esquecida por mim. Acho até que ofendi pessoas que não tinham nada que ver com o caso e a essas pessoas eu peço desculpas publicamente. Entretanto confirmo a maioria dos meus pronunciamentos feitos naquela oportunidade.”

“Meu pai sempre disse que o tempo se encarrega de provar o certo e o errado. Oito meses foram suficientes para comprovar que agi corretamente.”

Assim, com Juary, o futebol brasileiro volta ao mercado italiano. Jovem, veloz, franzino, inteligente, criativo, vivido, ele tem a missão de reativar o fascínio e a confiança que os italianos sempre tiveram para com os jogadores brasileiros.

A missão de Juary começa no dia 15 de Agosto, na Copa Itália.

*Publicado na Gazeta Esportiva de 05/07/1980

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