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A luta para ser “falso”

A luta para ser “falso”

* Publicado na Gazeta Esportiva de 10/06/1982

(Sevilha – de Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA.) – Apesar de todos os sintomas mostrarem que o técnico Telê Santana irá optar por Dirceu, na partida de estréia contra a União Soviética, isso não pode ser dado como definitivo. Telê insiste em não revelar aquilo que realmente deseja e enquanto o mistério permanece, os jogadores Paulo Isidoro e Dirceu trabalham muito em busca da posição de titular. Pela filosofia do treinador brasileiro quem jogar por aquele setor deve ser um falso ponteiro. Mas realmente o que é um falso ponteiro no time de Telê?

“Quero muita dedicação – diz Telê – e o jogador precisa ter um espírito de sacrifício muito grande. Admito que não é fácil, mas quem se cuidar, tiver consciência profissional, poderá executar tranqüilamente a missão.”

“Muitas pessoas admitem um falso ponteiro pela esquerda e estranham a presença de um pelo setor direito… não entendo isso.”

“Com o presença de um jogador assim pela direita, ele pode entrar pelo meio e um dos jogadores de meio de campo cai sem problemas por aquele espaço. Deve também cobrir as descidas dos zagueiros. Enfim, é um homem muito importante para o esquema de jogo. Taticamente não pode ser desprezado e apesar de não aparecer para o público, tem méritos indiscutíveis.”

ISIDORO

Paulo Isidoro e DirceuPaulo Isidoro treinou entre os reservas. Correu muito, driblou, teve boa presença, fez gols, chutou forte. Foi aplaudido pelo público que lotou o estádio de Mairena e apenas olhava para o gramado cabisbaixo, com olhar triste, pensativo. Paulo Isidoro está recuperado da dor no músculo adutor da coxa direita. Muita gente entende que ele perdeu a posição para Dirceu, mas ele não aceita esta colocação:

“Acho que não perdi nada… sofri de uma dor na coxa que me impediu de treinar. O nosso técnico buscou uma alteração, uma alternativa e encontrou o Dirceu. Felizmente deu certo, ele foi bem, e um bom jogador pode jogar mesmo naquele lugar. Mas eu não acho que perdi a posição. Até a estréia brasileira contra a União Soviética há tempo de voltar a treinar entre os titulares. Se isso não acontecer, ficarei no banco torcendo pelo Dirceu. Não acho que Telê seria injusto se não me escalasse.”

“Tenho certeza que não decepcionei. Afirmo que sou útil no esquema e apesar de não parecer muito, dou segurança aos meus companheiros. Quem duvidar é só perguntar para eles…”

“Um jogador ganha a posição, pois a reconquista através de muita dedicação e força de vontade isso não me falta. Sei que vai jogar aquele que estiver melhor dentro dos critérios do treinador e eu confio neles…”

DIRCEU

Dirceu treinou bem no time principal, marcou, driblou, fez gols, penetrou bem pelo meio e pela direita. Saiu de campo suado, com a camisa molhada e cercado por quase de trinta garotos que invadiram o campo. Dirceu tem muito prestígio, jogou na Espanha e o sotaque espanhol atrai ainda mais o público da terra.

“Eu não me considero titular, mas admito que estou treinando bem e espero jogar contra a União Soviética. Sei que não estou na seleção de muita gente, mas na minha eu estou e sou titular.”

“Estou lutando com o Paulo Isidoro, uma disputa leal e espero vencê-la. Não estou sentindo nenhuma dificuldade em jogar pela direita. Posso entrar pelo meio, não encontro problemas para chutar daquele lado e faço normalmente o trabalho de marcação na cobertura. Cheguei da Espanha, no Brasil, visto com desconfiança, com muita gente não acreditando na minha utilidade e estou conseguindo provar que posso ajudar, e qualquer lugar, menos no gol, porque não sou alto…”

“Saio de campo com a cabeça erguida, camisa molhada, não sou um super-craque, mas funciono, sou eficiente. Isso não é máscara, mas apenas certeza daquilo que eu posso fazer, onde posso chegar e quais são os meus principais objetivos.”

Paulo Isidoro e Dirceu encontraram-se dentro da grande área, dirigindo-se para o vestiário. Um olhou para outro, sorriram, caminharam lado a lado e Paulo Isidoro tomou a iniciativa da conversa: “Tudo bem… Poxa estamos no horário do jogo, nove da noite e ainda tem rei…”

Dirceu respondeu com ar de quem já sabia disso: “Quando eu cheguei na Espanha para jogar achei muito engraçado, mas agora já me acostumei. Mas o sol indo até à tarde é gostoso, né…”

“Você treinou bem, eu estava olhando – disse Dirceu – quase matando o lateral deles…”

Isidoro, riu e respondeu: “O time deles é fraco e isso não quis dizer muita coisa…”

“Agora que você vai treinar e espero que tudo ocorra bem…”

O relacionamento entre Dirceu e Paulo Isidoro é bom, amigável, leal e muito profissional. Um não esconde do outro que quer ganhar a posição e fará tudo para conseguir o objetivo treinando muito.

Até fisicamente os dois jogadores se parecem muito. Um é negro o outro não, mas são da mesma altura, franzinos, com enorme carga de fôlego e disposição. Nenhum dos dois se entregará, lutarão até um dia antes do jogo para entrar atuando contra os soviéticos.

O que é ser falso para Paulo Isidoro, jogando pela direita?

“Esse negócio de falso significa colaborar com todos do time e ter um grande espírito de sacrifício. O jogador deve atacar na hora certa, ficar sempre atento para dar a cobertura quando um chega vai à frente na tentativa de ataque. Não se pode descuidar um minuto apenas…”

“O falso ponteiro atua pela, pode jogar muito ofensividade durante um jogo, pode aparecer pelo meio, liberando os meio campistas e até funcionar com o zagueiro. Enfim, um falso ponteiro é o tipo da alternativa que pode ser usada em qualquer setor e em todos os momentos.”

Dirceu tem quase a mesma opinião:

“Acima de tudo, um jogador para cumprir este tipo de missão tática tem que ter muito coração. Tem que ser perseverante, não pode desistir e jamais se entregar. Há necessidade de um extremo condicionamento físico. Ele tem que correr durante todo o tempo dando cobertura, marcando, entrando pelo meio, correndo pelas pontas e até cometendo faltas providenciais.”

“O adversário tem que ficar preocupado sem saber como marcar um jogador falso para aquela posição, que pode jogar num só setor ou mesmo em todos os outros…”

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