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“Todos os dias tenho momentos profissionais emocionantes”, conta Wanderley Nogueira

* Por Denise Bonfim, para o Portal Imprensa

O futebol dos garotos do bairro mal acabava e o garoto Wanderley Nogueira já partia para entrevistá-los. Ele se divertia com a situação embaraçosa em que deixava os colegas. Achava engraçado quando, mesmo sem nenhum compromisso com a verdade e a seriedade, os “entrevistados” não conseguiam responder suas perguntas.

Desde cedo, já estava bem próximo do caminho que percorreria profissionalmente. Meio publicitário, meio jornalista, Wanderley dividia seu tempo entre as duas profissões – no período da manhã trabalhava com publicidade e, antes mesmo da noite chegar, estava na redação. A dupla jornada tinha um motivo, precisava guardar dinheiro para se casar. Escreveu sobre polícia, política e enfim, esporte, editoria onde até hoje é destaque.

Com 35 anos de carreira, Wanderley Nogueira colaborou com os maiores veículos esportivos do país. Esteve nas rádios Marconi, Piratininga, 9 de julho; nos jornais Diário de São Paulo, Diário da Noite, Folha da Tarde, Diário Popular, Popular da Tarde, A Gazeta Esportiva e Grupo Silvio Santos. Hoje empresta sua experiência à Rádio Jovem Pan, TV Gazeta e Portal Terra. Em entrevista à IMPRENSA, Wanderley contou alguns detalhes de sua longa e consolidada carreira.

Trabalhar com o futebol, acompanhando de perto o dia a dia dos envolvidos, faz o repórter se “desiludir” com os clubes ou você ainda é um torcedor?

Wanderley Nogueira – Torcer por um time, nem pensar. Torço por personagens. Por exemplo, um atacante com uma história bonita e emocionante. Fico feliz quando ele faz um gol. Um goleiro com uma caminhada profissional e pessoal respeitável. Gosto quando faz uma grande defesa.  A desilusão é com a gestão dos clubes. Dívidas impagáveis e elas continuam crescendo. E quando a imprensa pergunta sobre o caos financeiro os dirigentes dizem que “clube não é banco para dar lucro e o que importa é título”. A irresponsabilidade é assustadora.
Ao longo desses 35 anos de carreira, como evoluiu a imprensa esportiva? 
Tive o privilégio de acompanhar a evolução tecnológica das ultimas décadas. Microfones, gravadores e computadores, tudo mudou de tamanho e virou um sonho dourado para quem conheceu o telex e aqueles imensos e péssimos telefones. Imagine fazer grandes coberturas sem celular… E sobre a evolução da imprensa esportiva isso é algo que todas as gerações enfrentam. Em todas as épocas encontramos excelentes profissionais e os razoáveis. O nosso trabalho é público, está sempre sendo avaliado pelas pessoas. São os ouvintes, leitores, telespectadores e internautas que definem como você é recebido no mercado.
O bom humor sempre pareceu ser uma de suas características mais marcantes. Isso facilitou sua carreira e o relacionamento com os colegas de profissão?
Acho que é possível fazer jornalismo sério e, quando a situação permitir, ter bom humor. Bom humor é diferente de palhaçada, falta de respeito ou provocar humilhação. Jornalista sabe que precisa dos companheiros, de parceria, cumplicidade e amizade. Tenho consciência de que os meus melhores trabalhos só foram possíveis graças ao apoio dos meus companheiros, aqueles que estavam ao meu lado ou os muitos que ficam na retaguarda, recebendo uma ligação distante e na madrugada. E a minha relação com os entrevistados é respeitosa, sem deixar de fazer todas as perguntas cabíveis e esclarecedoras. Também entendo que jornalista tem de falar com frades franciscanos e com bandidos.
Qual o momento mais marcante na sua carreira?
Sempre que me perguntam qual o momento mais marcante da minha carreira eu respondo e depois me arrependo. Lembro de algo melhor. Não vou comentar esse erro mais uma vez. Mas, inúmeras Copas do Mundo (desde 78), torneios nacionais e internacionais, mais de 3.000 jogos de futebol, Olimpíada, dezenas de São Silvestre (muitos finais de ano longe de casa), dezenas de carnavais em São Paulo e no Rio de Janeiro, guerrilheiros na Colômbia, terremoto no México, erupção na Colômbia, atravessar a Cordilheira dos Andes de jipe, cinco mil entrevistas impressas, conhecendo e trabalhando em mais da metade do mundo e entrevistando muita gente, todos os dias tenho momentos profissionais maravilhosos e emocionantes
Em qual meio mais gosta de trabalhar?
Trabalho em rádio, TV e na internet. Gosto de todos esses instrumentos. Estou na Jovem Pan desde 1977. Minha relação com a JP, confesso, não é apenas empregado/empregador. Pode colocar nesse pacote afeto, respeito e a torcida permanente para que a emissora cresça todos os dias e continue dando empregos e ensinando muita gente. A família Machado de Carvalho [fundadores da emissora] abriu as portas para centenas de jornalistas. Os principais nomes da comunicação estão ou passaram pelas mãos do Seo Tuta. Na Fundação Cásper Líbero a minha relação é antiga. Fui repórter especial de A Gazeta Esportiva de 1980/1992 e nos últimos anos estou na TV Gazeta. O ambiente é bom, gostoso e todos tentam fazer uma boa televisão. No portal Terra tive o privilégio, há mais de 10 anos, de fazer o primeiro programa ao vivo pela internet, o Esporte Show. É um programa de entrevistas. Centenas foram feitas até hoje. A qualidade do Terra é reconhecida em todo o mundo.
Depois de cobrir tantos eventos internacionais, como Copa do Mundo e Olimpíadas, fazer esses mesmos eventos no Brasil vai ter um sabor especial? Está otimista quanto ao andamento dos projetos?
Os Jogos Olímpicos e o Mundial de futebol no Brasil vão exigir uma grande mobilização de todos os veículos.  Normalmente, quando esses eventos são no exterior, algumas empresas não mergulham na cobertura. Aqui vai ser uma megacobertura. Tudo será assunto.  Sobre as obras, entendo que os estádios ficarão prontos e o restante vai ser na base do jeitinho. O governo diz que os jornalistas são pessimistas. Esse pessoal confunde pessimismo com realismo. E torço para que todos os recursos públicos tenham auditoria rigorosa. Fiscalização séria é o que o país exige.
Como um dos nomes mais importantes do jornalismo esportivo, referência a todos que pretendem seguir na área, o que recomendaria aos jovens estudantes?
Felizmente, tenho tido uma relação muito agradável com os jovens. Durante 25 anos fui o coordenador geral da maior competição intercolegial do Brasil promovida pela Jovem Pan. Milhares de estudantes de 14 a 16 anos disputavam as mais diversas modalidades. Aprendi muito com essa garotada. Frequentemente vou às escolas e faculdades convidado pelos jovens. Conto a história da minha vida, apresento vitórias desabonadoras e derrotas consagradoras. Dificuldades nas coberturas, obstáculos ultrapassados, bons e péssimos momentos. Para todos os jovens eu recomendo honestidade no comportamento. Não vale vencer jogando sujo. E digo que gratidão não pode ter memória curta.

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