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[Resenha afetiva XXIII] A noite da arma

[Resenha afetiva XXIII] A noite da arma

É possível que nos lembremos apenas das histórias com as quais podemos conviver? Aquelas que nos deixam bem aos olhos do espelho? Em A noite da arma, David Carr redefine o conceito de memória por meio da exposição reveladora de seus anos como viciado, fazendo uma crônica da sua jornada sem rumo pelas drogas pesadas até se tornar colunista do New York Times.

Baseado em sessenta entrevistas gravadas, registros médicos e legais e três anos de reportagem investigativa, este livro é um relato feroz de um repórter que usa as ferramentas do jornalismo para checar os fatos de seu próprio passado. A pesquisa de Carr sobre a história dele mesmo revela que a odisseia que percorreu do vício até a recuperação, passando pelo câncer e pelos desafios de ser um pai solteiro, foi muito mais pesada — e, no fim, mais miraculosa — do que ele se permitia lembrar.

Em um primeiro momento, e de certa maneira, a história de A noite da arma é comum — um garoto de classe média chega ao fundo do poço e recupera a sanidade graças ao amor de sua família, ao entendimento de que existe algum Deus e a um grupo de apoio a viciados. No entanto, quando o pior é superado, e cremos nos aproximar de um final, a trama dá novos passos. Depois de 14 anos, Carr tentou beber socialmente, o que resultou em recaídas cruéis. Como repórter e colunista do maior jornal dos Estados Unidos, ele prosperou, mas continuou sem poder usar substâncias que alteram o humor, em uma busca diária por autocontrole e sobrevivência.

De maneira forte e eloquente, corajosa e sarcástica, A noite da arma desvenda como a memória nos ajuda não apenas a construir uma vida, mas a triunfar sobre ela.