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A imposição da ignorância

Bruno Castilho/Estadão Conteúdo
A imposição da ignorância

O INPE produz as estatísticas oficiais sobre o desmatamento na Amazônia. Há uma série; donde, uma história. É um órgão de natureza técnica, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Se o presidente contesta – chamou de mentirosos – os números apresentados pelo instituto, supõe-se que o faça com base em outros dados científicos; no caso, claro, divergentes.

Em qual levantamento alternativo – cujos indicadores sustentem a desconfiança – fundamenta-se Bolsonaro na hora de atacar o trabalho do INPE?

Obviamente: em nenhum.

A fala do presidente precisa ser encaixada, sem surpresa, no conjunto de manifestações por meio das quais, com frequência, expressa seu desprezo pela pesquisa, pelo estudo, conhecimento técnico.Está jogando pra galera, engordando a militância que se alimenta de teorias da conspiração, os que adoram ruminar teses como as de que o diretor do órgão estaria “a serviço de alguma ONG”. Para o bolsonarismo, todo o cientista/pesquisador está.

O que prejudica o Brasil não é a divulgação de dados alarmantes; mas a concretude de que tenhamos desmatado a tal ponto. Não desmatamos? Mostre-me a refutação científica e serei o primeiro a celebrar. Não sendo assim: investir no choque e esconder a verdade – ímpeto próprio à mentalidade autoritária – só tende a fazer barulho e amplificar o fato. Melhor enfrentá-lo.

Não menos lamentável é a adesão cínica de Marcos Pontes à mistificação do chefe. Segundo o ministro, a “contestação de resultados, assim como a análise e discussão de hipóteses, são elementos normais e saudáveis do desenvolvimento da Ciência (…)”. Eu o aplaudirei de pé se puder nos mostrar – de astronauta convertendo-se em mágico – como é possível contestar resultados sem outros que balizem a discordância. Sem lastro técnico, discussão de hipótese é eufemismo para imposição de ignorância. Batendo o pé e compondo a birra, ode à estupidez, Pontes pode até assegurar o emprego, mas não poderá falar em desenvolvimento da ciência.