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A fome e os vermes

A fome e os vermes

O presidente da República, como sabido, é hostil a pesquisas e estatísticas. A rigor, avesso à ciência. Sua avaliação sobre a fome no Brasil – mais precisamente, sobre não se passar fome no Brasil – é apenas nova expressão desse desprezo essencial pelo conhecimento técnico; algo agravado pela circunstância de então estar num encontro com jornalistas de veículos estrangeiros, condição sempre ideal para que um nacional-populista desdobre sua patriotada.

Segundo Bolsonaro, este homem das ruas, líder em contato constante com o povo, a evidência de que não se passa fome neste país estaria em não se ver gente pobre com físico esquelético.

Dizer o quê? Que não haverá tia do zap que discorde, nesta altura todas já mobilizadas para lembrar, uma à outra, que o presidente finalmente falou aquilo que elas há muito afirmam.

Dizer mais o quê? Que existem nuances, graus. Daí por que seja possível, comum, passar fome, circunstancialmente, aqui e ali, um dia ou outro, sem que isso seja, pois, condição permanente, estrutural, como aquela, epidêmica, que há em alguns países da África – aquela fome que multiplica esqueléticos. Nós não estamos lá; mas isso não nega (nem relativiza) o fato de que, na esteira da tremenda recessão econômica em que o lulopetismo nos escarrou, a pobreza entre nós aumentou nos últimos anos. Não é pouco regresso.

De um governante, tanto mais se eleito sob tal quadro, exige-se decência ao tratar da miséria.

Ontem eu vi, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, um indivíduo revirando lixo – lixo jogado ao chão – em busca de restos. Ninguém o faz sem fome. O corpo que manifesta a desnutrição extrema, aquele africano, não torna menor a fome de quem não tem certeza – os milhões de miseráveis brasileiros – sobre se encontrará o que comer amanhã.

Por fim, não posso crer que o presidente – o homem do povo – considere necessariamente alimentadas as crianças inchadas de lombriga, aquelas cujas barrigas protuberantes são consequência da ação dos vermes; os mesmos que, em outra entre as várias frentes de vergonha para um país que se insiste em 1940, nunca priorizam o enfrentamento do drama do saneamento básico neste Brasil.