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A minha maior

A minha maior

Considero Beth Carvalho a maior cantora do mundo em todos os tempos. Claro que a escolha é afetiva. Qual não é? Qual, quando se trata do que nos justificou?; do que nos ajudou a existir e suportar? Qual, se o que me ocorre agora, ao saber da morte de Beth, é refletir sobre o quanto ela cantou para compor minha identidade, aquilo que me fez singular, ou que me fez acreditar na minha singularidade?

Música é juventude. A morte dos que foram nossa juventude não é simplesmente envelhecer, mas perder a inocência que nos cultivava – enganava – jovens, como perdida já foi a cidade em que transitava sem medo, subúrbio adentro. A morte dos que foram o jovem que fui é a expressão – o confronto – da vida na forma de memória; é imposição retrospectiva. Valeu a pena?

Foram boas comigo – para mim – as escolhas que fiz, as fortunas que tive? Construí, nessas andanças, algo que ficou em mim, que ficou nos outros? Eu fui muito feliz, e fui muito feliz – amei muito e fui amado – ouvindo Beth Carvalho. Havia quem estivesse ali comigo. Nesse momento, penso nos amigos e nos amores com que dividi essa trilha.

Quando, lá no começo dos anos 1990, fui capturado pela cultura do samba, pela febre do ritmo, do couro, foi aquela a voz que encontrei – a de Beth Carvalho. Onipresente e generosa. Aquele raro timbre, um veludo sem a poeira do tempo (e do cigarro), e sobretudo a capacidade de cantar conforme ouvido do compositor, razão pela qual tinha o repertório que quisesse; porque os compositores acreditavam nela.

Acho que nunca houve intérprete mais fiel ao criador – ao modo como o compositor concebera a própria canção. (Penso agora em Almir Guineto, o sambista completo, que nos deixou; em Luiz Carlos da Vila, também já no céu, talvez o maior, e certamente o que me deu o maior porre da vida; em Arlindo Cruz – levanta, Arlindo!)

Beth Carvalho era profundamente equivocada em política. Mas sempre foi fácil separar sua obra – seu cantar – do que pensava, isto também porque nossa relação era mesmo anterior à minha formação intelectual decisiva. Eu era um moleque – e revolução para mim era a promovida pela roda de samba das quartas no Cacique de Ramos, aquela de que Beth fora fiadora e da qual extrairia ao menos três discos fundamentais, transformando a maneira de se tocar e gravar samba.

Alias, pelo menos dois discos seus estariam entre os dez – entre os cinco – que levaria a uma ilha deserta: “Dé pé no chão” e “Na fonte”, este talvez o meu favorito. Para que fique claro: o favorito entre todos, de todo o universo.

Ocorre-me, de repente, se não terá sido a paixão por aquela cantora o que me fez amadurecer para conseguir separar obra e ideologia num artista… Toda entrega numa relação é um convite a nuances.

Terei ido a centenas de shows de Beth Carvalho, mas estive com ela – frente à frente, apenas os dois – somente uma vez, quando a entrevistei para minha pesquisa sobre o já referido Cacique. Foram horas, muitas, que ela dedicou a mim, um garoto então de 21 anos, estudante de jornalismo, editor ainda tateando… Ela ficou intrigada por eu ser imperiano, mas se convenceu de que era papo-firme quando lhe cantei “Pernambuco, Leão do Norte”. Então, pedi – e ela cantou “É, pois é” para mim, samba do Guineto, tocando o cavaquinho do Nelson Cavaquinho.

A maior cantora do mundo em todos os meus tempos.