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A força concreta do tempo e os reais desaparecidos

EFE
A força concreta do tempo e os reais desaparecidos

Quem já perdeu alguém amado decerto compreenderá o que provavelmente se passa, agora, na cabeça de alguns entre os que tiveram um querido assassinado pela lama da Vale: há uma semana, ele estava aqui. É a força simbólica do tempo – tanto maior sob o tempo recente. Será assim também amanhã, por volta das 12h, quando – sete dias depois – alguém refletir sobre o almoço da sexta anterior, o último para os mortos, também o último antes de o crime transtornar, para sempre, a existência dos que restaram.

A força simbólica do tempo: a que nos revolve a memória, a que nos arma a saudade. A força concreta, incontornável, do tempo: a que nos mata a fé e nos planta no mundo real, barbaramente perecível. Chego ao ponto. O tempo corre; o pulmão seca. A ideia de busca se recoloca. Busca a o quê?

É um momento delicado para o jornalismo, pois afetará a esperança das gentes; mas já é hora, infelizmente, de não mais falar em desaparecidos. A vida sob os rejeitos, neste momento, seria exceção; um triunfo dramático da condição humana, precária, sobre o peso da massa sem ar.

O que há, nesta altura, quase uma semana desde o rompimento da barragem em Brumadinho, é um número assombroso de mortos, a maioria dos quais a jamais ter o corpo encontrado. Este é o desaparecido possível passados já tantos dias: o corpo, ou alguma parte dele, para identificar e enterrar. Esta é a esperança possível: encontrar algo do que se despedir. A busca, pois, é por algo de dignidade, por um pedaço de honra; por permitir que quem perdeu dê curso à tradição apaziguadora do luto, aquela em que se tem um canto no qual cultivar a flor.

Não subestimemos a importância do ritual – daí por que se deve pelejar longamente, ao máximo, por localizar corpos e entregá-los às famílias – tanto quanto não cultivemos a fantasia da sobrevivência. Cultivemos a flor.

Aquelas pessoas morreram.