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Ronco e câncer de próstata podem ter ligação, sugerem estudos

Ronco e câncer de próstata podem ter ligação, sugerem estudos
Free Image/Pexels

Roncar vai muito além do barulho – e bastante incômodo para quem está ao lado.  Estudos recentes  vêm sugerindo um novo fator de risco para o câncer de próstata: a apneia obstrutiva do sono, uma doença caracterizada por episódios recorrentes e intermitentes de colapso das vias aéreas, que levam à cessação total ou parcial do fluxo de ar. Pode causar ronco, fragmentação de sono, sonolência excessiva diurna, cansaço, redução da memória e alterações de humor.

Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) dão conta que em 2020 foram diagnosticados 65.840 casos de câncer de próstata, o equivalente a 29,2% dos possíveis novos casos de câncer no sexo masculino. É o segundo tipo de tumor mais comum nos homens, só ficando atrás do câncer de pele. Mutações genéticas, histórico familiar da doença e envelhecimento podem influenciar o desenvolvimento deste tumor que ocorre em especial a partir dos 65 anos, quando são diagnosticados 75% dos casos.

Para investigar o assunto, o biólogo Allan Saj Porcacchia, aluno de Doutorado do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vai realizar um estudo pioneiro no Brasil para avaliar o efeito deste distúrbio de sono sobre o antígeno prostático específico (PSA), o principal biomarcador usado para rastrear o câncer de próstata. A pesquisa usará dados da 4ª Edição do Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (EPISONO), conduzida entre 2018 e 2019 pelo Instituto do Sono, e contará com orientação do Dr. Sergio Tufik, Presidente do Instituto do Sono e Professor Titular da Unifesp, da Dra. Monica L. Andersen, Diretora de Ensino e Pesquisa do Instituto do Sono e Professora Livre-docente do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, e do Dr. Gabriel Natan Pires, Pesquisador do Instituto do Sono.

“Os distúrbios de sono podem ter consequências fisiológicas importantes e estar associados a diversos problemas de saúde e há evidências de que o sono desempenha um papel significativo em sua regulação e no desenvolvimento do câncer”, afirma o biólogo. Em maio de 2021, o European Journal of Cancer Prevention, órgão oficial da Organização Europeia de Prevenção ao Câncer, publicou um artigo encabeçado por ele. O texto foi assinado ainda pelo Dr. Sergio Tufik, a Dra. Monica Andersen e a Dra. Diana A. Dias Câmara.

Câncer de Próstata

A próstata é uma glândula que envolve a porção inicial da uretra e fica abaixo da bexiga. Sua função é produzir parte dos fluidos do sêmen. Com o passar do tempo, pode aumentar de tamanho em razão de uma condição inflamatória benigna – a hiperplasia da próstata – ou de problemas mais sérios, como o câncer. O aumento ocorre em geral após os 50 anos e provoca, em geral, jato de urina fraco, sensação constante de bexiga cheia e dificuldade de urinar. Inicialmente, evolui de forma assintomática ou com sintomas parecidos aos do crescimento benigno. Na etapa avançada, pode provocar sintomas urinários, infecção generalizada ou insuficiência renal, ou até dor óssea, quando ocorre metástase do tumor. Os dados mostram que 1 em cada 9 homens desenvolverá esse tipo de tumor ao longo da vida.

Estudos recentes mostram que a incidência do câncer de próstata em homens com apneia do sono é maior do que em indivíduos sem esta condição. Em 2021, pesquisadores coreanos e um norte-americano divulgaram na revista Medicine um trabalho que comparou 152.801 homens diagnosticados com apneia do obstrutiva do sono entre 2007 e 2014 com 764.005 indivíduos sem o distúrbio de sono. Após um acompanhamento de 4 anos e 6 meses, constaram que os casos de câncer de próstata apresentaram  risco de 1,34 vezes maior de serem observados nos homens com apneia obstrutiva do sono do que no grupo de controle. Houve ainda um aumento de 1,51 vezes desse risco na faixa etária de 40 a 65 anos.

Ao revisar 12 estudos com 862.820 participantes, pesquisadores chineses constaram que apneia obstrutiva do sono está relacionada à incidência de todos os tipos tumores. O artigo, publicado em agosto de 2021 na revista Sleep Medicine, da Sociedade Mundial do Sono, mostrou que a incidência do câncer de próstata nesta população foi a mais alta – num total de 1,1% –, seguido dos cânceres de mama, pulmão, colorretal, melanoma e de rim.

Ligação perigosa

Os mecanismos envolvidos na associação entre apneia do sono e câncer de próstata ainda não são muito claros. Uma hipótese aponta para o fato de que indivíduos que apresentam este distúrbio de sono por um longo período de tempo passam a ter inflamação crônica no organismo. “O ambiente inflamado favorece o desenvolvimento do tumor, que se apropria de alguns fatores de crescimento secretados pelas células saudáveis”, pondera Allan Saj Porcacchia.

Por outro lado, distúrbios de sono podem comprometer o sistema imune. Dormir bem é essencial para as defesas naturais do organismo, porque durante o sono profundo ou sono de ondas lentas ocorre o pico de produção do hormônio do crescimento, a elevação dos níveis do hormônio associado à resposta imunológica e a queda na secreção do hormônio induzido pelo estresse (cortisol). Os despertares sucessivos causados pela apneia obstrutiva do sono podem afetar o sistema imune, já sobrecarregado pela inflamação crônica. Essa combinação perigosa é capaz de levar ao desenvolvimento do tumor e dificultar que o sistema de defesa o reconheça como um corpo estranho.

Cabe lembrar que a apneia obstrutiva do sono provoca vários episódios da interrupção da respiração. Por isso, os cientistas levantam a hipótese de que a queda dos níveis de oxigenação dos tecidos, mesmo que momentânea, favoreceria o desenvolvimento de determinados tumores afeitos a ambientes com pouco oxigênio.

Prevenindo o câncer

Consultas periódicas ao urologista, alimentação saudável, atividade física regular, peso adequado à altura, redução no consumo de álcool e não fumar estão entre as maneiras de prevenir o câncer de próstata. Para quem tem apneia obstrutiva do sono é preciso também consultar um especialista em Medicina do Sono para receber o diagnóstico e o tratamento adequado. Confira aqui as mais importantes manifestações da doença:

  • Ronco intenso e frequente, que piora quando se dorme de barriga para cima ou após consumo de álcool.
  • Pausas da respiração durante o sono, engasgos noturnos, respirar de boca aberta, acordar com frequência e sono inquieto.
  • Sonolência excessiva diurna, caracterizada por necessidade de cochilar em situações em que não se esperaria ter sono.
  • Alterações no humor, redução da memória, sono não reparador e hipertensão arterial.