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Sarriá, 40 anos

Sarriá, 40 anos

Eu tinha 15 anos. Hoje faz 40 da derrota que me fez adulto – mas não muito.

O tempo voa como o jogo depois dos 2 a 3. Sigo ainda com a mesma esperança de que vai dar. Vai vencer o melhor. É que o mundo é assim. Injusto.

Mas que vale mesmo a pena torcer pelo melhor. Pelo bonito. Pelo que se atira. Pelo que se joga e joga muito. Pelo que é nosso. Mesmo que acabe com os outros.

Não ganhamos. Mas não nos perdemos assim.

A única derrota definitiva e que não tem revanche no futebol é o Maracanazo de 1950.

Até os 7 a 1 do Mineirão de 2014 o Brasil pode devolver – se fizer 7 a 1 na Alemanha em Stuttgart, numa semifinal mundial.

Mas nem se ganhar a Copa de 2030 no Centenário, de virada, sobre os donos da casa, a Seleção consegue devolver o Maracanazo.

Logo, pela minha ótica míope, com descolamentos de retina e com glaucoma, o 3 a 2 de 5 de julho de 1982 na Espanha o Brasil pode devolver com juros e correção futebolística algum dia.

Só que dificilmente com um time tão bonito e talentoso como aquele, ousado em um 4-2-3-1 que assim não se descrevia – mas que já era, como aquela Seleção sempre será. Mesmo não tendo sido.

Como disse o meia-direito italiano naquela quente tarde catalã no Sarría que jamais sairá da gente: “se o Brasil jogar 20 vezes com a Itália, ganha 19. Menos neste dia”.

Marco Tardelli. Naquele 5 de julho.

O juventino era um dos todos que duvidavam que Paolo Rossi (de frágeis quatro apresentações pela Azzurra depois de ficar quase dois anos suspenso pela Justiça italiana) pudesse desembestar e marcar os três gols do ótimo time de Enzo Bearzot contra o Brasil. Depois os dois que eliminariam a Polônia, na semi. E o primeiro dos 3 a 1 contra a Alemanha, na decisão do tri mundial italiano. Centroavente de completa negação e teima do treinador itialiano a artilheiro e craque da Copa nos últimos três jogos.

Rossi como a arma. Letal.

Campeão pela Itália que, de outubro de 1981 a novembro de 1983, só venceu quatro partidas – as que precisava vencer no Mundial na Espanha.

A segunda delas contra o Brasil de Telê. O terceiro time que conquistou o planeta e os corações em uma Copa, mas não ergueu o caneco.

Pior. Nem às semifinais chegou. Húngaros em 1954 e holandeses em 1974 ao menos levaram viradas dos alemães ocidentais no final. Na decisão onde não chegou o Brasil, em Madri, pela queda antecipada e não anunciada em Barcelona.

Pela indecisão tática de quem deveria acompanhar o lateral Cabrini na bola que meteu para o letal Rossi, entre Luisinho e Júnior, abrir a contagem no antigo campo do Espanyol; na saída errada de Cerezo que pegou Luisinho já partindo ao ataque no segundo gol de Rossi; no escanteio (que não foi) que, na sobra, Júnior ficou dando condição a Rossi fazer o seu hat-trick. De tirar o chapéu pela superação italiana que teve um gol mal anulado de Antognoni (como o Brasil não teve antes um pênalti claro sobre Zico).

Acontece. Mas justo naquele jogo injusto?

Como Zoff defender aquela cabeçada de Oscar sem dar rebote, aos 42. Como Telê não ter no banco o lesionado Batista para manter o placar depois do golaço de Falcão. Como a tentativa de o Brasil segurar o placar se frustrar por erros individuais do melhor time da Copa. E que em 1981 era mesmo o melhor do planeta. Mas que por 90 minutos doloridos e malditos para o futebol mundial não conseguiu ser o que foi. E o que sempre será para quem gosta do futebol e seus riscos e risos.

A derrota brasileiro no Sarriá que hoje já não existe mais entrevou os gramados. A praga pragmática entrou como se fosse Gentile de sola nos times mais propositivos: “Que adianta jogar bonito e perder”? perguntaram arautos e apedeutas resultadistas do planeta. Serviu infelizmente para que se jogasse mais feio e se perdesse horroroso. Como o futebol se viu no fundo do poço tático e técnico no insuportável Mundial de 1990. Não por acaso na Itália que já tinha Falcão. Depois teria Cerezo, Zico, Sócrates e Júnior daqueles titulares maravilhosos. E podia ter quase todos eles, incluindo reservas (que lá também jogariam, como Edinho, Pedrinho, Batista e Dirceu).

A mesma bela Azzurra que jogara lindo na Copa de 1978 (com Bettega) e acabou na quarta colocação. E que só jogara bem e competitivo (com quase o mesmo time) nas últimas quatro partidas de 1982.

O futebol seria mais lindo (e justo) se a Itália tivesse vencido em 1978, e o Brasil, 1982.

Não foi assim.

E por isso este 5 de julho dói para quem chorou como eu aos 15 anos. E não precisa ser brasileiro. Por isso este dia merece sempre a capa do JT do dia seguinte, no maravilhoso registro de Reginaldo Manente.

Choramos. Mas em pé. Com o peito juvenil enchido de orgulho e tristeza, não de empáfia.

Um futebol que eu queria campeão. Não só pelo Brasil. Mas pelo futebol