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Liverpool e ser campeão

Liverpool e ser campeão

– Estou devastado. Nunca mais vou jogar pra vocês [torcedores do Liverpool].

Steven Gerrard, 34 anos em maio de 2015, Liverpool desde o berço, atleta do clube desde os 7, profissional desde novembro de 1998. Foram 17 anos jogando de vermelho do coração. Desde 2000 na Seleção Inglesa. Desde 2003 capitão. Dez troféus. Único do mundo a marcar em finais de Liga dos Campeões, da Copa da Uefa, da FA Cup e da Copa da Liga inglesa.

Mas nenhum título inglês contra colossos como Manchester United, Arsenal, o City dos últimos tempos, e o Chelsea que desde 2003 o queria pintado de azul. Em 2005 pagava outra exorbitância por ele. E Steven não quis sair do Liverpool dele. Da Liverpool que ele faz ainda melhor pela ajuda que dá à cidade e aos cidadãos.

Milan e Real Madrid também o quiseram. Mas ele sempre disse não ao dinheiro.

Ele sempre disse sim ao clube onde jogou por 709 vezes em 17 anos. Onde anotou 185 gols como todocampista que é: marca como volante como começou, arma como meia e como winger que foi, finaliza como atacante que foi. Principalmente na virada de Istambul, em 2005, quando exerceu ao menos quatro funções diferentes contra o Milan. E mesmo na decisão do Mundial, quando só Ceni o parou, no Japão, contra o São Paulo.

Gerrard não ganhou o mundo com o Liverpool e nem nos três Mundiais que disputou pelo English Team. Nem mesmo a Premier League ele ergueu sobre a cabeça privilegiada como fez de modo emocionante na Liga dos Campeões de 2005. Mas o respeito que ganhou tanto quanto atleta quanto como craque-bandeira é eterno como o 8 de vermelho. O número 8 que vira infinito quando deitado.

Pra sempre Gerrard.

Um cara que não é apenas o maior do Liverpool. É dos melhores dos últimos tempos, como defende Zidane. Também pela capacidade inata de liderar um time, de dar o exemplo nos treinos, de ser a palavra final no vestiário, dando carrinhos e desarmando até como lateral, organizando o jogo com visão de jogo e técnica apurada, e rara velocidade para alguém tão alto.

Um jovem que até se perdeu no começo da carreira, batendo um bolão nos bares, até ser repreendido pelo treinador Gerard Houllier:

– Fique longe das boates enquanto você joga futebol e depois compre uma quando você se aposentar

Ele ficou longe. Não sei se comprou uma casa noturna ou um shopping.

Mas sei que esse é um cara que não tem preço.

O craque que ao se despedir de Liverpool e de Anfield Road, me fez chorar demais na transmissão do Fox Sports, ao lado de Gustavo Villani – que chorou ainda mais.

Não sou Liverpool. Não sei se Gerrard jogou mais que Lampard. E vi alguns poucos que jogaram mais que ambos.

Mas tem alguém tão torcedor quanto Steven?

Até tem.

Mas alguém tão ídolo mesmo sem ter vencido um título nacional desde a estreia em 1998, um cara que tenha visto o United superar o seu clube em conquistas nacionais nesse período?

Tem algum ídolo que em 2014 tenha escorregado em casa, contra o Chelsea, dando o gol a Demba Ba, e perdendo naquele lance a chance do título inglês que não chegava desde 1990?

Não tem.

São poucos Gerrard mesmo entre tantos malucos como Gerrard por um clube apaixonante como o Liverpool.

São ainda menos profissionais como ele que, no discurso de despedida, perguntado a respeito de qual o maior momento dele em Anfield, não hesitou em dizer:

– A minha estreia pelo Liverpool. Tudo que veio depois foi um bônus.

Isso foi em novembro de 1998, quando jogou os minutos finais contra o Blackburn Rovers. Isso fica pra sempre.

Um cara do bem. Que joga e vive simples.

– Agradeço a todos os jogadores que atuaram comigo no clube. Eles me fizeram o que sou. E, mais que tudo, os torcedores. Joguei diante de muitas torcidas pelo mundo. Mas vocês são os melhores.

Steven não jogou pra galera. Ele é a torcida. King of the Kop.

O cara de vermelho.

O menino que um dia pegou dois ônibus sob chuva e depois neve com o pai para treinar no centro de excelência que jã não existe mais no clube. Para ser o exemplo do que é ser torcedor e jogador.

Também para ser o que o primo mais velho Jon-Paul não pôde ser.

Jon-Paul era dois anos mais velho que Steven. Como ele, torcedor fanático do Liverpool. Como o primo mais novo, queria ser jogador do time vermelho da cidade de uma dupla de John & Paul famosa.

Em 15 de abril de 1989, Jon-Paul nadava numa academia quando os tios vieram com a ótima notícia. Eles tinham conseguido ingresso para o estádio de Hillsborough. Semifinal de Copa da Inglaterra. Liverpool x Nottingham Forrest.

Jon-Paul mal conseguiu avisar os pais. Foi pra Sheffield ver o jogo que durou apenas três minutos. Superlotação do estádio combinada com pouco preparo do policiamento e das autoridades levou à morte de 96 torcedores do Liverpool por pisoteamento e esmagamento contra as grades e muros do estádio.

O mais jovem morto tinha 10 anos. Era o primo mais velho de Steven Gerrard, que tinha então apenas oito. Era Jon-Paul.

Desde então, Steven disse pra ele e para o mundo que jogaria pelo primo morto em Sheffield.

Treinou e se preparou e suou e jogou e foi Liverpool “por Jon-Paul”.

Toda vez que entra em Anfield e vê o memorial dos 96 mortos de Hillsborough, Gerrard procura o nome do primo. Em campo, joga por ele. Quando celebra e olha pra cima, olha pelo primo que ele sempre sentiu olhando por ele e por aquilo que os une tanto quanto o sangue:

Liverpool FC.

Isso sempre acontece com ele quando entra no estádio dele. E cada vez mais dele.

Como ele entrou pela 354a no gramado dando um tapinha no quadro “This is Anfield” antes de entrar e perder pro Crystal Palace.

Não importa.

Ele estava com as três filhas ao lado dele. E com legiões de torcedores órfãos pela despedida dele.

– It’s been a pleasure, lad!

É um prazer, cara, como estava em uma das faixas de torcedores.

Foi com prazer e respeito que ele foi aplaudido na outra rodada por torcedores do Chelsea. Foi tudo isso que ele fez ao cumprimentar os rivais perfilados para saudá-lo.

Respeito.

Você pode não gostar do Liverpool e nem dele.

Mas adoraria ter um cara como ele em seu time.

Volte sempre, Steven.

Você nunca andará sozinho em Liverpool.

E isso tudo só pra dizer que você pode voltar agora a Anfield.

Com todo o respeito a esse maravilhoso Liverpool de 2018 até hoje, a esse trio infernal de atacantes nota 7 que juntos somam mais que 30 pontos, a esse Van Dijks que pululam na zaga como se fossem da armada da Kop de Klopp, pra mim, que não sou Liverpool, é tudo que Gerrard andou acompanhado. Mesmo sem ter ao lado seu primo e companheiro.

Os Reds mereciam estar presentes nas bancadas campeãs. Ou mesmo estar com o time em campo para ser campeão depois de 30 anos. Mas quis a bola que depois de o Manchester City não conseguir vencer o Chelsea, o título viesse com absurdas seis rodadas de antecedência: 28 vitórias, 2 empates e uma derrota.

E por ora 23 pontos à frente do vice.

Tinha que ser sofrido. Como tantos pelo mundo sofrem muito mais com a pandemia. Como as famílias dos 96 de 1989 em Hillsborough sofrem muito mais.

Como aquele garotinho que perdeu seu primo. Aquele mesmo que um dia em 2014 pisou na bola contra o mesmo Chelsea como jamais havia feito e perdeu uma Premier ganha. Aquele capitão de Istambul. Esse colosso que gera orgulho até em quem não é vermelho de sangue e alma como Gerrard.