Não cubro mais moda. Já foi meu interesse principal. Já estive muitas vezes nos corredores da SPFW. Já visitei estilistas, os assediei por telefone por uma entrevista. Já fui esnobada, normal… Faz parte do ambiente “modas”. Já fui medida… Mas já fui compreendida, amada, recebida de braços abertos. Tá ai o desabafo de quem, por um lado, acha um alívio não ter mais que fazer o tricô com assessorias de marcas fashion explicando que também poderia ser legal falar com uma rádio, e que além de rádio, éramos também imagem na internet.

Mas hoje, quando leio sobre o desfile do Ronaldo Fraga… Dá saudade. Ronaldo sempre faz algo especial. E quando falo leio, é porque você não precisa especificamente ver as roupas dele para entender no que ele quer tocar em cada coleção. Então, ignorando seus processos artesanais caprichosos, sua escolha de tecidos, seus meios de produção corretos, a nossa brasilidade que ele nunca deixa de lado, queria falar sobre a mensagem do último desfile de Ronaldo Fraga.

O estilista escolheu o Teatro São Pedro para apresentar El Dia Que Me Quieras, nome que faz referência a um espaço de resistência ao preconceito, criado pelo estilista Ney Galvão no interior da Bahia nos anos 1970. Para desfilar suas criações, 28 transexuais e travestis. Despertando a plateia, e os brasileiros para o fato de que o nosso país é onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo, segundo um relatório da ONG Transgender Europe.

“A história toda não está mais nas roupas e sim em quem as veste”

A apresentação terminou com as modelos dançando valsa só de lingerie. Todos aplaudiram de pé. Ronaldo Fraga se emocionou.

“Estamos em tempos de guerra. Minha forma de protesto é essa. Nós não precisamos mais de roupas. A moda precisa começar a dialogar em outras frentes”

A modelo transexual Carol Marra participou do desfile

“Ronaldo deu voz a quem não tem voz, deu visibilidade a pessoas que são invisíveis. Todas as modelos do desfile eram trans e puderam contar uma história independente do seu gênero, afinal a genitália estava tampada. Então elas mostraram uma roupa com beleza, feminilidade e dignidade, como qualquer outra modelo faz. Foi muito lindo”

Saiba mais sobre o trabalho de Ronaldo Fraga:

O artista plástico Arthur Bispo do Rosário, brilhante mas interno de um manicômio, a estilista Zuzu Angel, assassinada pela ditadura militar, os escritores Guimarães Rosa, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, os cantores Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa e Nara Leão… Todos já serviram de ponto de partida para as colocações de Ronaldo Fraga. Comportamentos brasileiros foram explorados, como o das artesãs que moldam as bonecas de barro, no Vale do Jequitinhonha, ou aquilo que povoa as margens do Rio São Francisco, ou a Amazônia, o Estado do Pará e o semi-árido, tão bem retratado na coleção Carne Seca, de 2013. 

Seu último desfile E Por Falar em Amor , para o Inverno 2016, arrancou lágrias emocionadas dos fashionistas, por falar de amor, por falar de igualdade.

“Não importa o nível intelectual, social, a idade de onde a pessoa vem: todo mundo tem uma história de amor para contar, que viveu ou que gostaria de ter vivido. O amor nos une, nos nivela”

“E POR FALAR EM AMOR” – RONALDO FRAGA Inverno 2016 from Bruno Ianni Gouveia on Vimeo.

Ele já esteve no Morning Show:

Cineminha? Trolls, a versão cinematográfica de A Garota no Trem e um nacional que me deixou curiosa Direto do Sofá - Negan em The Walking Dead, Black Mirror e Gilmore Girls

2 thoughts on “Ronaldo Fraga é o coração da moda nacional”

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