Tudo começou na última sexta, quando Donata Meirelles, diretora da revista Vogue Brasil, comemorou seus 50 anos com um big de um jantar no Palácio da Aclamação, em Salvador. Teve até show de Caetano Veloso. As fotos começaram a pintar na web e desceram atravessadas na garganta de muitos que interpretaram racismo e o tema do evento como escravocrata e colonial:

Na fotos, mulheres negras vestidas de baianas recebem os convidados na entrada do local, ao lado de uma cadeira pavão. A roupa também foi interpretada como sendo de mucamas. Um dos comentários mais compartilhados na internet foi de Lilia Schwarcz, antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton:

 “E o que faz uma pessoa se vestir de sinhá, e ficar recebendo os convidados ao lado de duas mucamas? É isso que se chama racismo estrutural! Um racismo tão enraizado que parece invisível. Mas não é. Muito triste esse nosso país que cria essa falsa nostalgia de um passado romântico que jamais existiu. O dia a dia da escravidão foi duro e violento. Não há nada para comemorar ou celebrar. Melhor é refletir e mudar. Todos juntos.”

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Eu sinceramente não sei o que está acontecendo conosco! Não se trata de acusar uma pessoa, criar um “bode expiatório” e jogar todas as culpas no colo alheio. Mas alguém me explique o que faz uma diretora de uma famosa revista feminina, a Vogue, dar uma festa de aniversário em Salvador, no dia 8 de fevereiro, em ambiente escravocrata do Brasil colonial? E o que faz uma pessoa se vestir de sinhá, e ficar recebendo os convidados ao lado de duas mucamas? É isso que se chama racismo estrutural! Um racismo tão enraizado que parece invisível. Mas não é. Muito triste esse nosso país que cria essa falsa nostalgia de um passado romântico que jamais existiu. O dia a dia da escravidão foi duro e violento. Não há nada para comemorar ou celebrar. Melhor é refletir e mudar. Todos juntos. (Ps. A diretora da Vogue acaba de pedir perdão. Disse que não era sua intenção mas reconhece o erro.)

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Resume bem o disse em seu blog, Tony Góes,

“Mas é preciso uma dose extra de falta de noção para uma branca se sentar em um trono (“de candomblé”) em pose de rainha, ladeada por duas negras, e postar a foto no Instagram achando que o Brasil de 2019 vai achar lindo. Não faltou quem lembrasse que o marido de Donata, o publicitário Nizan Guanaes, tem uma agência chamada África que emprega poucos negros.”

A repercussão negativa foi grande o que gerou um pedido de desculpas por parte da dona da festa:

“Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições.”

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Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim cadeira Emanuelle usadas em todos os lugares do mundo e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa feitos por elas próprias.Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir.

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Kenia Maria, nomeou o que aconteceu de racismo recreativo, e completou:

“EU SOU MÃE DE SANTO E ATÉ HOJE NÃO TENHO CORAGEM DE SENTAR NA CADEIRA SAGRADA DE UMA IALORIXÁ!!!”

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são 3 vídeos, ok? Eu estava um pouquinho chateada.👿 SOBRE O RACISMO RECREATIVO BRASILEIRO. EU SOU MÃE DE SANTO E ATÉ HOJE NÃO TENHO CORAGEM DE SENTAR NA CADEIRA SAGRADA DE UMA IALORIXÁ!!! PELO AMOR DE MÃE SENHORA( minha avó de santo) ,MÃE STELLA, MÃE ANINHA, MÃE MENININHA, MÃE BEATA, MÃE GAIAKU LUIZA, OBARAYI ( meu pai de santo) , SAMUEL GAMA( meu avô paterno) @rodneywilliam2018 PAREM EM NOME DO ABEBE de OXUM! Leiam! Se informem! Não ignorem as milhares de Ialorixás Babalorixás e intelectuais negros que existem no Brasil!! ESTUDEM! Ah, só mais uma coisinha… PAGUEM OS INTELECTUAIS NEGROS! Obrigada 💕 #racismorecreativo #racismobrasileiro #racimo #racismonamoda #vidasnegrasimportam

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Elza Soares se manifestou me suas redes com um depoimento cru sobre o racismo que já experimentou nessa vida.

“Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das casas das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na pele, na alma e trago comigo até hoje as cicatrizes. Eu e a maioria do povo negro brasileiro. Feridas que ainda não se curaram e todo santo dia são cutucadas para mantê-las abertas, sangrando, como uma forma de demonstrar que lugar de preto é na Senzala, nessa Senzala moderna, disfarçada, à espreita, como se vigiasse o nosso povo.”

A artista fechou seu texto dizendo:

“A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Continuaremos “desenhando” isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. De que planeta você veio?
Seguimos em luta.”

Ainda rolaram outros eventos de comemoração aos 50 anos de Donata. Sábado, os convidados foram recebidos no restaurante Amado, também em Salvador, com shows de Preta Gil e Ivete Sangalo. A cantora falou sobre o que acredita:

“Mesmo que a gente fique um tempo sem se encontrar, eu sei que você é uma pessoa boa, carinhosa. Eu disse que viria cantar para você e eu vim, porque é nessas coisas que eu acredito, na verdade das coisas que a gente faz. Mas quero dizer também, que o que estou fazendo aqui hoje é pensando no outro. Embora tudo pareça muito difícil é preciso pensar no outro, precisamos recapitular e pensar no outro e compreender a atenção do outro. E por isso que eu estou aqui com a Preta Gil”

https://twitter.com/NaoInviabilize/status/1094653429769818112

Domingo, ainda aconteceria show de Gilberto Gil, e um brunch no Terreiro de Gantois, no mesmo dia do aniversário da Mãe Menininha do Gantois. Esse evento foi cancelado. O ator e escritor Érico Brás comentou o cancelamento como uma vitória da pressão contra o racismo:

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Fim…por enquanto!

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