Tenho acompanhado a polêmica em torno da escolha da cantora Fabiana Cozza para interpretar Dona Ivone Lara em uma produção musical que tinha estreia marcada para setembro deste ano, no Teatro Carlos Gomes, no Rio. A divulgação do elenco foi feita na última quarta-feira, e desde então a opção pelo nome de Fabiana, indicada pela própria família da sambista, vem sendo questionada.

Dona Ivone Lara, a Grande Dama do Samba, morreu no dia 16 de abril do ano passado, aos 97 anos. Lutou contra o racismo e o machismo se consagrando como uma das maiores compositoras e intérpretes da música brasileira. Cantaram suas músicas Clara Nunes, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, e tantos outros, inclusive Fabiana Cozza.

Neste domingo, Fabiana renunciou ao papel com a publicação de uma carta em que fala de sua vivência, como filha de pai negro e mãe branca, conhecedora e respeitadora do repertório de Ivone Lara, com quem inclusive fez shows pouco antes de sua morte. Cozza falou da sua trajetória e de seu sentimento em relação à tudo isso.

Alguns responderam à carta, enfatizando que as críticas não eram direcionadas à Cozza, mas à tentativa de “clarear a imagem de Dona Ivone“, negra retinta. “Não é justo com ela, não é justo conosco, que lutamos todos os dias contra esse racismo”. É uma questão já amplamente discutida,  o conceito de colorismo: quanto mais escura a cor da pele, maior o preconceito, quanto mais clara, maior a aceitação social. Ao Globo, a ativista Stephanie Ribeiro, que organizava um boicote ao musical, declarou:

“- (A renúncia) foi a melhor coisa que podia ocorrer. (A escolha dela) foi como quando a Zoe Saldana interpretou a Nina Simone. É a lógica racista de não escolher uma pessoa negra de pele mais escura. Isso reforça o embranquecimento de pessoas negras (nas artes) historicamente. A atitude dela foi positiva, ia ser uma mancha em sua carreira. A pressão foi muito grande, não ia acabar. Existe um público que busca representatividade e que já está no seu limite, é uma coisa vindo com força.”

Também na matéria do Globo, a declaração da dramaturga Maria Shu me chamou a atenção. Ela lembrou dos casos de Machado de Assis, Chiquinha Gonzaga, Stela do Patrocínio e Bispo do Rosário, todos interpretados por pessoas de pele mais clara no teatro e na TV. Também falou sobre a questão das atrizes de pele escura, que já têm menos oportunidades e, quando surge um papel para elas, são sempre preteridas em favor do que ela chamou de “um padrão de negritude que privilegia a pele mais clara, um tipo de negro mais palatável.” Ela afirma:

“Hoje não cabe mais ter embranquecimento e apagamento da História do negro.”

Hoje haverá uma reunião da produção do musical para decidir como proceder com a saída de Fabiana Cozza. A cantora também recebeu apoio de alguns artistas como Fioti, Leci Brandão e da secretária municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira, entre outros.

 

CARTA DE FABIANA COZZA

Fabiana Cozza dos Santos, brasileira

Nascimento: 16 de janeiro de 1976

Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca

Pai: Oswaldo dos Santos, negro

Cor (na certidão de nascimento): parda

Aos irmãos:
O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres – que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.
Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.
Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.
Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.
Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.

Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas… Ao lado de vocês, irmãos.
Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.
Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.
Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.
Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.
Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.
Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.
Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.
Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.
Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.
Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.
Fabiana Cozza

Uma retificação na carta que escrevi: a frase/pensamento “alma não tem cor” é de autoria do querido compositor e cantor @andre_abujamra @abujamra.andre e foi interpretada por @oficialchicocesar
Desculpe, André e obrigada pela orientação!

Lendo sobre tudo isso entendo completamente a questão da representatividade de Dona Ivone Lara como negra retinta, mas abraço Fabiana por se sentir esvaziada da sua própria cor. Vivemos o tempo de exercitar o pensamento sobre o lugar de fala e a representatividade, mas espero que ainda exista espaço para considerarmos intenções e corações.

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