Ontem, em reunião na sede da Biblioteca Nacional, no Rio, Chico Buarque foi eleito por unanimidade como vencedor do Prêmio Camões, entregue desde 1989 pelos governos de Portugal e do Brasil, e considerado um dos maiores reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. O prêmio é de € 100 mil ( algo como R$ 452 mil) e será entregue em setembro, em Lisboa, em uma data ainda a ser definida.

Em Paris, o artista só recebeu a notícia no fim do dia, e declarou através de sua assessoria de imprensa:

“Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar”

Raduan Nassar, considerado um dos maiores escritores brasileiros do século XX, vencedor do mesmo prêmio no ano de 2016, autor de Lavoura Arcaica e Um copo de cólera e que curiosamente abandonou a literatura nos anos 1980 para virar fazendeiro.

A escolha dos laureados pelo Camões é baseada na obra completa do autor. Chico é o 13º escritor brasileiro premiado, assim como já foram Jorge Amado (1994) e Ferreira Gullar (2010). Em nota, o júri do troféu ressaltou a “contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa” e ainda o “caráter multifacetado” do trabalho do artista, com braços na poesia, teatro e romance.

“Seu trabalho atravessou fronteiras e mantém-se como uma referência fundamental da cultura do mundo contemporâneo”

Entre todos os autores que já ganharam a honraria, Chico é o primeiro que tem como cerne da trajetória a música popular. O escritor e também compositor Antonio Cicero, membro do júri, falou sobre essa questão:

“Evidente que esse prêmio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música ‘Construção’, por exemplo, é um poema até raro de se fazer”

Houve quem se lembrasse que em 2016, foi de Bob Dylan o prêmio ​Nobel de Literatura. Alguns ressaltaram inclusive que a relação de Chico com a escrita além da composição é mais palpável. Além de compor vários clássicos da música brasileira, Chico tem obras literárias inclusive anteriormente premiadas. Em uma breve retrospectiva podemos estabelecer:

Roda Viva (1968)
Peça de estreia para Chico Buarque dramaturgo. Foi símbolo de resistência à ditadura.

Ópera do Malandro (1978)
Sucesso de Chico no teatro, este musical é inspirado na Ópera dos Mendigos, de John Gay, e na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht.

Budapeste (2003)
Obra que rendeu ao autor o Prêmio Jabuti de melhor romance em 2004.

Leite Derramado (2009)
Obra vencedora do Jabuti de livro do ano de ficção, em 2010, ficando em segundo na categoria romance.

O último livro publicado por Chico Buarque foi O Irmão Alemão (2014).

Dylan escreveu seu primeiro livro em 1966. Tarântula trás uma história ficcional, publicada em 1971, e lançada no Brasil apenas em 1986, com tradução de Paulo Henriques Britto. Em 2005, foi lançada no país sua autobiografia Crônicas Vol. I, com a tradução de Lúcia Brito. Narrativa que se desdobra em mais dois volumes. A organização do ​Nobel de Literatura justificou a premiação:

“Por criar uma nova expressão poética na tradicional canção americana”.

VENCEDORES DO CAMÕES:

1989 – Miguel Torga, Portugal

1990 – João Cabral de Melo Neto, Brasil

1991 – José Craveirinha, Moçambique

1992 – Vergílio Ferreira, Portugal

1993 – Rachel de Queiroz, Brasil

1994 – Jorge Amado, Brasil

1995 – José Saramago, Portugal

1996 – Eduardo Lourenço, Portugal

1997 – Artur Carlos M. Pestana dos Santos, o Pepetela, Angola

1998 – Antonio Cândido de Melo e Sousa, Brasil

1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal

2000 – Autran Dourado, Brasil

2001 – Eugênio de Andrade, Portugal

2002 – Maria Velho da Costa, Portugal

2003 – Rubem Fonseca, Brasil

2004 – Agustina Bessa-Luís, Portugal

2005 – Lygia Fagundes Telles, Brasil

2006 – José Luandino Vieira, Angola

2007 – António Lobo Antunes, Portugal

2008 – João Ubaldo Ribeiro, Brasil

2009 – Armênio Vieira, Cabo Verde

2010 – Ferreira Gullar, Brasil

2011 – Manuel António Pina, Portugal

2012 – Dalton Trevisan, Brasil

2013 – Mia Couto, Moçambique

2014 – Alberto da Costa e Silva, Brasil

2015 – Hélia Correia, Portugal

2016 – Raduan Nassar, Brasil

2017 – Manuel Alegre, Portugal

2018 – Germano Almeida, Cabo Verde

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