A búlgara Kristalina Georgieva é a segunda mulher a ocupar o cargo de diretora-geral do Fundo Monetário Internacional. Ontem, em sua estreia pública durante a reunião anual do Fundo, em Washington, ela abriu os trabalhos com o painel Mulheres, trabalho e liderança, em que fez um discurso forte sobre igualdade de gênero.

“No FMI, somos 25% de mulheres nas posições mais altas. Acham que é como deveria ser?”

E Georgieva provocou:

“Estou perguntando aos homens.”

A própria reconheceu:

“Como muitas da minha geração, por muito tempo eu não acreditei em advogar por igualdade de gênero, até perceber que tomar essa atitude manteria mulheres para trás, porque não estamos no ponto de que podemos ser ‘gender blind’ e vermos mulheres recebendo o mesmo tratamento quando aplicarem para a mesma posição.”

E afirmou que dar o mesmo tratamento e valorização para o trabalho de homens e mulheres é fundamental para o desenvolvimento econômico dos países. O FMI divulgou um estudo em que aponta para a necessidade de se reduzir a carga de trabalho não pago das mulheres e redistribuir esse tipo de tarefa entre os gêneros. O estudo mostra que políticas que ajudem a reduzir e redistribuir o trabalho não pago podem gerar aumento de 4% no PIB.

“Não há forma de qualquer sociedade prosperar sem contar com o talento de todo seu povo, homens e mulheres. É muito simples: se você ignorar parte das suas capacidades vai com certeza ficar aquém em termos de conquistas econômicas. O FMI tem mostrado muitas evidências nesse sentido.”

A média de trabalhos não pagos é de 2,7 horas a mais para as mulheres na comparação com homens. Entre os países, a diferença oscila. Na Noruega, as mulheres gastam 20% mais tempo nos trabalhos não pagos do que os homens. No Japão, esse número cresce para 380%. Já no Paquistão, a diferença pula para 1.000%.

Georgieva acredita que é preciso ir além da vontade política para conseguir resultados concretos:

“Se você tem a vontade política, mas não faz o trabalho duro, não haverá igualdade na sociedade […] no FMI, temos que fazer o trabalho dentro de casa”

Kristalina citou dados e pesquisas que indicam que empresas são mais lucrativas com mulheres no comando e governos menos corruptos com participação de mulheres na administração. Também forma expostos dados sobre a realidade ainda distante da real igualdade de gênero. A diretora-geral afirmou que seu objetivo é fazer do Fundo um exemplo sobre igualdade de gênero.

“Não é só uma coisa boa a se fazer, é, na verdade, fantástico para obter mais resultados.”

Uma das soluções práticas propostas para acelerar o processo de igualdade de gênero nas sociedades são as cotas para mulheres nas empresas.

“Não é a solução perfeita, mas é pragmática.”

“Precisamos de forte comprometimento, porque não é fácil mudar a sociedade. Não cai do céu, temos que trabalhar duro. A conversa aqui não será suficiente –apesar de ser um ótimo painel– precisamos dar outros passos.”

Georgieva também falou da sua trajetória pessoal, inclusive falando sobre a questão salarial:

“Só me deram um aumento quando cheguei a uma posição sênior”

Foi então que ela pediu que as mulheres não aceitem nunca receber menos do que um colega que exerça a mesma função e disse que é preciso que elas sejam mais auto-confiantes e não se coloquem de forma diminuída durante uma entrevista de emprego.

“Eu tive um caso em que estava entrevistando um homem e uma mulher para o mesmo trabalho, basicamente as mesmas características, os dois atendiam à metade dos critérios para o trabalho e não atendiam à outra metade. A mulher disse: ‘eu não sei se sou para esse trabalho, atendo apenas à metade dos critérios’. O homem disse: ‘eu atendo à metade dos critérios e estou te oferecendo minha incrível personalidade’.”

Ela também se dirigiu aos homens dizendo que eles deveriam ser “nossas almas gêmeas”, entender que “somos mais fortes juntos” mas, por fim, “continuar sendo homens”:

“Se há uma mala pesada aqui, você pode dizer: quer ajuda?”.

Além de agradecer sua antecessora, Christine Lagarde, que “quebrou o teto de vidro” e facilitou a chegada de mais uma mulher à chefia do FMI, Georgieva trouxe sua experiência pessoal e a ideia de um futuro diferente para outras gerações:

“Eu trabalhei mais duro do que qualquer homem só para ser igual. Por trabalhar mais e trabalhar mais duro, eu fui mais longe do que eles. E aqui estou, estou comandando o FMI”

“Tenho filha e tenho neta, e quero que elas trabalhem tanto quanto os homens e sejam iguais apenas porque elas são.”

 

 

 

 

 

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