Ontem, exatamente no local onde o guerrilheiro Carlos Marighella foi morto pela ditadura militar há 50 anos, um grupo de cerca de cem pessoas se reuniu,  celebrando sua memória e defendendo a importância da resistência no atual cenário político.

Na alameda Casa Branca, em São Paulo, Maria Marighella, neta do fundador da Ação Libertadora Nacional, considerado o maior grupo armado contra a ditadura, falou:

“Há um desejo de interdição do debate político no Brasil. É interditar um candidato, que é o ex-presidente Lula; é interditar uma parlamentar como Marielle; quando você censura as artes. Eles precisam interditar para implementar uma política do terror, do ódio, da miséria. Mas as ideias e as lutas são imortais”

“Não pode o filho do presidente falar sobre AI-5, porque o AI-5 fere a Constituição, então é inconstitucional. O desejo de apagamento existe e nós vamos fazer o relembramento”

Maria também disse:

“há a dor da injustiça moral, de tratá-lo como terrorista”

“O novo ciclo é dizer ao Brasil quem é Marighella. Há muitos Marighellas. […] A luta antirracista e antimachista em curso é Marighella. A cada vez que reinventamos a luta, reinventamos Marighella”

Clóvis de Castro, membro da ALN, também estava presente, assim como membros do PT, MST, UNE, Levante Popular da Juventude e ainda antigos guerrilheiros e ex-presos políticos da ditadura. A viúva do guerrilheiro, Clara Charf, de 94, também estava presente. Afirmou que “todas as resistências são válidas” e “que a luta só acaba quando acabar a injustiça”.

Teve #LulaLivre e relatos de companheiros de Marighella. Teve quem defendesse que o governo atual fosse derrubado e de que a mudança não deveria ser feita via eleições. Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos no governo Lula, relacionou Marighella e Marielle, também lembrada em um colar usado pela neta do guerrilheiro:

“o desafio do momento é sintetizado por Marighella e Marielle.”

Para lembrar os 50 anos da morte de Marighella, estava prevista a estreia do filme, dirigido por Wagner Moura, agora em 20 de novembro. O filme teve o lançamento cancelado por contratempos com os prazos exigidos pela Ancine.

Marighella é interpretado por Seu Jorge. O elenco conta ainda com Adriana Esteves, Bruno Gagliasso e Humberto Carrão. A produção da 02 Filmes é baseada na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães, Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo.  Acompanha os últimos cinco anos de vida do guerrilheiro, partindo do golpe militar de 1964 até a sua morte. A produção segue sem data de estreia no país, apesar de já ter sido exibida em alguns festivais, como o de Berlim, no qual fez sua estreia.

Ainda em lembrança dos 50 de sua morte, haverá o lançamento da uma coletânea de textos de Marighella, agora em novembro.

Também no cinema, previsto para ser lançado em abril do ano que vem, haverá o lançamento do documentário Codinome Clemente. Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz  integrava a Ação Libertadora Nacional, e foi um ativo guerrilheiro na luta armada contra a ditadura militar. Quando Carlos Marighella foi assassinado, tinha com ele um bilhete que fazia referência a Clemente.

Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz chegou a ver não só o documentário, dirigido por Isa Albuquerque, mas também o filme de Wagner Moura. Não poderá vê-los chegar ao mercado, pois faleceu em junho deste ano, vítima de um câncer.

Quem foi Marighella?

O baiano, filho de pai italiano e mãe negra, iniciou sua vida universitária cursando engenharia civil na Escola Politécnica da Bahia. Aos 18 anos, entrou para o Partido Comunista.

Em 1932, foi preso por escrever um poema com críticas ao interventor Juracy Magalhães. Fez carreira na militância política, foi preso e torturado diversas vezes, e como integrante do Partido Comunista Brasileiro, pelo qual chegou a se eleger deputado constituinte (1945), viveu também as sucessivas proscrições do partido. Marighella chegou a ir para a China entre 1953 e 1954, para conhecer a Revolução Chinesa.

Em 1964, depois do golpe militar, foi baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema, no Rio. Libertado em 1965 por decisão judicial, escreveu Por que resisti à prisão e A Crise Brasileira, nos quais pregava a luta armada com base na aliança entre operários e camponeses.

Carlos Marighella foi então expulso do PCB por participar da Organização Latino-Americana de Solidariedade, em Cuba, e logo depois criou o grupo de guerrilha urbana ALN, a Ação Libertadora Nacional.

Em 1969, junto com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), a ALN sequestrou do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi trocado por quinze presos políticos. No mesmo ano, Marighella foi morto na noite de 4 de novembro, por policiais em uma emboscada em São Paulo, na Alameda Casa Branca. A operação foi comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, sendo considerada um dos marcos do fim da guerrilha urbana. A cena do crime foi adulterada pelos militares, que além de revistarem o corpo, colocaram Marighella, que estava no banco da frente de um Fusca, no banco de trás, antes que pudesse ser fotografado.

Na versão dos militares, Marighella foi varado por uma rajada de metralhadora quando, do banco de trás do fusca, reagiu a tiros a uma ordem de prisão do delegado Fleury. A perícia, entretanto, acabou concluindo que não saíra um tiro sequer da arma de Marighella. Os dois frades dominicanos, que a polícia usou como isca para Marighella, disseram em julgamento que o guerrilheiro foi executado no meio da rua, longe do fusca em que eles estavam. Existe ainda a versão do Grupo Tortura Nunca Mais, que através da interpretação de laudos, defendem que Marighella foi morto com um tiro no peito à queima-roupa, sendo que foi também alvejado por outros três disparos.

Entre os relatos da sua trajetória, cartas enviadas a Fidel Castro e manual de guerrilha que inspirou os Panteras Negras.

Marighella foi também homenageado em música de Caetano Veloso, em 2012:

“Assim nasce um comunista
Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar”

 

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