Vamos falar das repercussões que estão acontecendo depois que Ancine cancelou uma sessão para servidores do filme brasileiro que disputa vaga no Oscar. A Secretaria de Gestão Interna da Ancine vetou a exibição de A Vida Invisível, do diretor Karim Aïnouz, para servidores da agência. O evento serviria para a capacitação dos funcionários que trabalham no órgão responsável por pensar políticas públicas e por fiscalizar a indústria cinematográfica nacional. Servidores da Ancine chegaram a declarar para a Veja que a mostra estava prevista para esta quinta-feira, como parte  parte de um processo de capacitação anual em que um filme nacional é exibido, seguido de debate com a presença de produtores.

A Secretaria de Gestão Interna, chefiada por Cesar Brasil Gomes Dias, informou internamente que o evento não poderia ser realizado porque o projetor da sala de exibição estava quebrado, mas parece que servidores questionaram o funcionário responsável pela manutenção do local, que disse que não havia nenhum problema técnico com o aparelho.

Além disso, cartazes do filme foram retirados das paredes da agência reguladora do audiovisual nacional.

O motivo? De acordo com Karim, a Ancine não explicou com clareza.

O cineasta cearense conversou com a Veja e falou sobre o que pode apurar a respeito dos motivos para o cancelamento:

 “O que eu percebo é que o governo Bolsonaro é um governo nebuloso. Que não explica o que faz, não faz comunicados oficiais. É uma rede de desinformação: postam algo no Twitter, apagam, depois postam outra coisa. Faz parte da estratégia deles deixar a população no escuro. Dizem que foi um problema técnico, mas então por que tiraram os cartazes de A Vida Invisível das paredes da Ancine? Foi censura, sim. Não podem cancelar a projeção de um filme num órgão público sem explicar claramente o motivo.”

Perguntaram sobre o Secretário da Cultura, Roberto Alvim, que já fez críticas à Fernanda Montenegro, e se isso poderia ter relação com o veto ao filme.

É difícil especular. Se isso for um motivo, pior ainda. Fernanda é um patrimônio nacional, reconhecida no mundo inteiro. Quem ataca Fernanda Montenegro está em surto. Só pode ter um desequilíbrio mental clínico. De repente, a Fernanda é colocada como antagonista da cultura brasileira? Não faz nenhum sentido. Essa mulher só merece ser reverenciada. Um dia, estávamos juntos e a questionaram sobre o que esse Roberto disse sobre ela, ao que Fernanda respondeu: eu nem sei quem é esse senhor. Eu digo o mesmo: quem são essas pessoas à frente de um importante órgão público? Quais são suas credenciais?”

Sobre se a polêmica poderia ajudar a promover o filme, Aïnouz respondeu:

“É uma pena que num momento de alegria, que nosso filme está sendo celebrado pelo mundo, ter de lidar com coisas primarias como essa. O que mais escuto ao redor são comentários de tristeza. Mas eu não tenho tristeza, eu tenho raiva. É uma pena que eu sinta isso, num momento que deveria ser de alegria. Que governo é esse? Que consegue contaminar e ser de uma toxicidade em um ano que era para ser só alegria?”

O elenco do filme agora tenta garantir uma exibição ao ar livre, na frente da Ancine.

A atriz Mariana Ximenes abriu o Festival de Cinema do Rio vestida de reproduções de pôsteres de títulos do nosso cinema, como Cidade de Deus, O Pagador de Promessas e O Beijo da Mulher Aranha. A roupa é um protesto à retirada de cartazes de filmes nacionais da sede da Ancine (Agência Nacional de Cinema), no Rio. Em novembro, mais de 100 quadros com pôsteres, que estavam nas áreas comuns da agência e retravam filmes nacionais, foram levados para um depósito no centro do Rio de Janeiro. Também foram apagados do site da Ancine todos os pôsteres de lançamentos brasileiros.

Nesta terça, o secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, foi questionado sobre as inúmeras polêmicas de indicações de cargos e sobre sua conduta. Ele afirmou que o governo de Jair Bolsonaro não irá “aparelhar” a produção artística do Brasil:

“Um governo de esquerda patrocina propaganda ideológica. O governo de direita patrocina obras de arte. O que estamos lutando é pelo renascimento do conceito de obra de arte”

Perguntaram se o governo pode financiar obras críticas à gestão de Bolsonaro:

“Não patrocinaremos propaganda política seja ela de qual vertente for”.

Alvim disse que até mesmo um projeto que inclua Fernanda Montenegro poderá ser apoiado, caso adequado para isso:

“Uma sonata de Beethoven é de esquerda ou de direita? Nem de esquerda nem de direita. São obras de arte. Estamos lutando pelo conceito de obra de arte, não por um veículo de propaganda ideológica. Não por um veículo de agenda, seja ela qual for”

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