O Instituto Muda é uma empresa que oferece soluções de gestão de resíduos para prédios residenciais. Isto é: eles implementam a coleta seletiva nos condomínios, cuidando de todo o processo envolvido, incluindo a instalação de containers que vão abrigar os materiais, a educação ambiental para os moradores e funcionários e até a entrega dos resíduos coletados em cooperativas de baixa renda, que farão a destinação correta do mesmo. Trata-se de um negócio social, ou seja, uma empresa que atua como ONG, trabalhando com meio ambiente e questões sociais, mas gerando lucro – sendo que ele é integralmente reinvestido no próprio negócio.

Confira abaixo uma entrevista com Alexandre Furlan, sócio-fundador do Instituto Muda.

Quando um condomínio procura o Instituto para contratar o serviço, qual é o passo a passo de atuação de vocês?

O trabalho começa com uma visita técnica para analisarmos quais os pontos de melhoria naquele condomínio em relação à limpeza e o cuidado com o lixo. Muitos deles, por exemplo, ainda têm lixeiras nos andares, o que é proibido por uma Lei Estadual. Fazer esse tipo de adequação é o passo inicial. Na sequência, desenvolvemos um projeto para entender onde os nossos containers ficarão localizados. Uma vez aprovado o estudo, entregamos os equipamentos e iniciamos a fase de educação ambiental. Conversamos com os funcionários do condomínio, especialmente aqueles que trabalham com a limpeza, e depois fazemos um treinamento com todos os moradores, de andar em andar. Nesse momento, conseguimos cerca de 80% de adesão. Criamos essa metodologia de ir até o apartamento do morador ao constatar que, em reuniões do condomínio, por exemplo, a presença é muito baixa. É uma conversa de dez a 15 minutos, mais ou menos, que esclarece dúvidas comuns, como aquelas a respeito do que é ou não é reciclável. Esse papo com os moradores acontece no período noturno, que é quando quase todos estão em casa. No momento seguinte, conversamos com funcionários dos próprios apartamentos, como empregadas domésticas. A conversa com elas ocorre no período da manhã, de segunda a sexta, também como forma de garantir uma maior adesão.

Como é feita essa conversa com os moradores?

Trabalhamos com as “agentes Muda”, nossas colaboradoras que vão até os apartamentos. A ideia é abordar o assunto de maneira simples, sem cara de palestra. Não queremos explicar afundo a reciclagem, e sim mostrar como fazer, com uma proposta bem prática mesmo. Priorizamos a linguagem informal, focada em dicas e procedimentos fáceis. Esse processo de educação garante que, quando o trabalho de reciclagem de fato começar, a quantidade de rejeitos gerada pelos apartamentos seja a menor possível. Muitas vezes, as pessoas que não passaram por um processo de educação ambiental cometem erros na hora de tentar reciclar. Um deles, por exemplo, é misturar recicláveis de não-recicláveis em uma mesma sacola, ou ainda deixar as embalagens com muito resto de produto, como alimentos e itens de limpeza, o que também prejudica o processo. Se chegar na cooperativa dessa maneira, o material é rejeitado. O objetivo então, da nossa educação, é que no final tenha, no máximo, 10% de rejeito. Nossos indicadores mostram que esse índice tem sido mantido.

Quais são os custos envolvidos no projeto?

Nunca pedimos para o condomínio construir um depósito para armazenar os lixos recicláveis e não-recicláveis nem nada nesse sentido. Nós mesmos levamos os containers, que são do próprio Instituto, feitos de TetraPak e tubos de pasta de dente – ou seja, o próprio equipamento é feito de material reciclado – para serem instalados nos prédios. Quem patrocina esse material são empresas parceiras. Esses containers são normalmente colocados nos subsolos e se dividem em alguns tipos: recicláveis básicos, como papel, plástico, metal e vidro, e os chamados recicláveis especiais, como óleo de cozinha, lixo eletrônico, pilhas e baterias, cartucho de impressoras e até roupas para doação. O próprio morador pode levar seu lixo até o contâiner e o custo mensal, que arca com os nossos serviços, é de R$10 por apartamento. O valor banca todos os nossos serviços, que inclui instalação de contâiner, educação ambiental, recolhimento de material – nós temos uma própria frota de caminhões, que passa pelos condomínios de uma a cinco vezes por semana, dependendo do tamanho de cada um, e leva os materiais recolhidos até as cooperativas – e ainda a entrega de resultados, para que todos saibam qual volume de lixo está sendo gerado, quanto disso está sendo reciclado e qual o impacto social do trabalho.

E o trabalho com as cooperativas, como funciona?

Atualmente, temos parceria com 12 cooperativas. Nos locais, os trabalhadores, em sua maioria moradores de rua, fazem a triagem do material. Isto é: o morador só precisa separar o reciclável do não-reciclável, é na cooperativa que essa separação mais específica é feita. Os funcionários dividem os resíduos em mais de 20 tipos e, depois, prensam o material e vendem às recicladoras. Ao final do mês, o valor arrecadado é dividido igualmente entre os cerca de 50 a 60 trabalhadores que atuam em cada cooperativa. Nós aconselhamos os moradores de rua a entrarem em cooperativas, e não andarem com suas carroças pelas ruas. Não é um trabalho digno e é perigoso.

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