Quem dita o que é certo e o que é errado? o que é ou não tolerável? Quem é o juiz no “tribunal da internet”?

Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear a prática virtual de boicote a personalidades (famosas ou não) que cometeram alguma violência ou tenham dito algo considerado moralmente errado pelos padrões de determinado grupo dentro e fora da internet. O famoso “politicamente correto”

O termo foi popularizado e ganhou fortes proporções a partir dos movimentos de denúncia como o #MeToo. E partindo desse ponto, temos algumas vertentes.

Há quem defenda a cultura do cancelamento como meio de romper com a estrutura blindada de pessoas privilegiadas na sociedade. Tem aqueles que acreditam que o cancelamento é uma maneira abrupta e ineficiente de mudar comportamentos considerados incorretos… e tem aqueles que acham que tudo não passa de uma grande bobagem.

Existe uma frase que ficou conhecida através da HQ Watchmen que diz “who watches the watchmen?” Quem vigia os vigilantes? Essa é uma das muitas variações do original em latim, “quis custodiet ipsos custodes?” – que pode ser traduzida também como “quem guarda os guardiões?”, “quem fiscaliza os fiscalizadores?”, e assim por diante. Até então, tal questionamento se referia a ditaduras, governos tirânicos, enfim, mas o contexto em si é “quando os “vigilantes” passam dos limites, quem terá poder ou autoridade para contê-los?”

Nos últimos dias o cancelamento virou pauta nº1 de discussões em diversos núcleos da sociedade, quando todos começaram a se questionar… Quem cancela o cancelador? Será que, apontar o dedo e cancelar uma pessoa resolve problemas estruturais ou apenas reproduz uma lógica punitivista?

Para conseguir respostas concretas é preciso chegar na raiz do problema. Por que nos sentimos intitulados a controlar o que é correto e o que é inaceitável? Seria esse um reflexo de nosso ego sem limites ou uma resposta descontrolada a falta de reação a situações problemáticas?

A origem baseada na justiça social do movimento prova que, pelo menos no início, suas intenções eram nobres, e perante a falta de posicionamento de órgãos de poder ao discurso de ódio, a população assumiu para si a tarefa de julgar. Entre a falta de confiança no sistema e o desejo de corrigir a sociedade, esquecemos, porém, de refletir sobre uma de nossas grandes verdades: como seres livres e críticos, não pensamos igual, nem crescemos dentro das mesmas condições.

Não há nada de errado em buscar um mundo melhor, mas devemos evitar que nossas crenças impeçam o diálogo aberto e a chance de que nossos colegas, familiares, amigos e inimigos cresçam e evoluam, assim como um dia fizemos.

A autorreflexão e o controle são necessários para entender quando um movimento extrapola seus limites, tornando-se elitista, seletivo e violento. Perseguições, ameaças e hostilidade tornaram-se características comuns do cancelamento, e não é necessário procurar muito para encontrar resultados desastrosos.

Não podemos depender de constante vigilância para que não deixemos o pior de nós tomar o controle. No fim, a menos que queiramos entregar nossa liberdade de expressão nas mãos de outra pessoa, devemos ser críticos também de nossas ações.

Para uma sociedade mais pacifica e acolhedora, precisamos manter nosso coração e mente abertos, e olhar para os outros assim como olhamos para nossa própria pessoa, nossos erros e ideais. Nós mesmos devemos vigiar e questionar nossa vigilância – claro, sempre com a ajuda daqueles que nos cercam.

Vamos aprofundar mais esse assunto? No último episódio do “Saí de Casa”, as apresentadoras Luísa Accorsi e Manu Carvalho bateram um papo sobre a Cultura do Cancelamento e o Big Brother Brasil 21. O episódio já está disponível e você pode conferir nas principais plataformas de áudio.

Por Sandro Christy e Ana Flavia Lapa