Há uns dias, uma blogueira famosa postou uma foto de seu bebê incrivelmente lindo.

E eu, que não sou boba e amo fotos de bebês, já soltei o dedinho pra curtir a publicação, antes mesmo de ler a legenda que dizia: “Eu nem me lembro mais de como era a vida antes de você”.

Foi aí que eu pausei a tela e meus olhos encheram de lágrimas.

 

Eu me lembrava de tudo.

 

Tinha guardado nas memórias e nas saudades mais gostosas como era a minha vida antes da Malu.

A infância querida.

A adolescência despreocupada e rodeada de amigos.

Os verões em volta da piscina onde nós só lembrávamos que tínhamos casa tarde da noite e ficávamos na água até o dedo enrugar.

As horas sem fim na faculdade.

Dormir na casa das amigas quando a última coisa que fazíamos era dormir.

Maratonar as séries preferidas no fim de semana com pipoca, guaraná e chocolate.

Escolher a sessão do cinema pela quantidade de cadeiras lá no alto disponíveis.

Trabalhar 16 horas no dia ou acordar um pouco mais tarde e tomar café da manhã na padaria.

Namorar sem pressa e sem correria.

Viajar só pra andar mais tempo de mãos dadas.

Fazer compras no supermercado tarde da noite porque o dia foi incrível e nem vimos a hora passar.

Cabelo arrumado e sempre impecável, maquiagem em dia, academia então, nem se fala…

A lista é grande, viu?

 

Eu me lembro exatamente de como era e de como era bom.

E tenho milhares de histórias engraçadas, lições de vida e paisagens lindas para contar para a minha filha.

 

Agora, minha amiga, eu te pergunto: isso me faz ser uma mãe pior ou amar menos meu bebê?

Por que nós continuamos reproduzindo essa história insana de que mãe tem que se ausentar, se anular e se esquecer para ser formidável?

Por que devemos esquecer de tudo o que era bom em nossas vidas apenas para mostrar que só agora a vida faz sentido e que só agora a gente entendeu o que é felicidade?

 

A verdade é que, quando li essa frase, eu me senti extremamente culpada e até cheguei a questionar meu amor pela Malu. Se eu não tinha esquecido e sentia falta desse “ter tempo para tudo”, talvez eu estivesse arrependida de tê-la. Não é?

Não, não é.

Tudo bem você se lembrar de tudo o que viveu até agora com saudade e alegria.

Tudo bem o coração apertar de vez em quando e você sentir aquela vontade maluca de voltar a ser uma adolescente despreocupada.

A maioria de nós se sente assim.

A maioria de nós ainda vai se lembrar da vida antes dos filhos, mas o segredo está em ressignificar a nossa realidade dia após dia e reconhecer o mundo colorido e a experiência avassaladora que a maternidade pode nos proporcionar.

Algumas qualidades minhas, como minha força e minha coragem, eu só consegui identificar com clareza depois da Malu.

E a minha vida depois dela também é incrível, mas incrível de outro jeito.

A maioria de nós se sente assim.

A diferença é que algumas falam e outras preferem esconder.

Não se esconda de si mesma.

Tudo bem lembrar.

Andressa Rosa

Eu era roteirista, aí virei mãe da Malu e nunca mais consegui parar de falar sobre isso. Hoje tenho um blog, um podcast e muita história boa pra contar!

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