Somos reflexos da nossa vivência, ou vivemos aquilo que espelhamos? Confuso né? Mas vamos lá. Para um segundo e reflita, “Em que momento você decidiu ser quem você é hoje” Pensa aí, eu espero…

Provavelmente, você tenha de fato algum momento específico na vida que foi o seu estopim e isso moldou o seu eu hoje. Mas nem sempre acontece assim. Ao longo dos anos estabelecemos e reforçamos a “cultura do crachá”. Temos o hábito de nos apresentar, seguidos da nossa profissão, por exemplo “Oi eu sou o Sandro e sou jornalista” ou quando vamos apresentar alguém. “Oi essa aqui é a Carol, ela é médica” Pode não ser intencional, mas mesmo sem perceber fazemos isso. Como se a nossa profissão fosse capaz de nos definir e expressar nossa complexidade, caráter e personalidade. Esse comportamento acontece de forma tão natural, que poucas vezes paramos para pensar de onde ele vem.

Culturalmente, desde pequenos ouvimos a seguinte pergunta “O que você quer ser” – e por “o que você quer ser”, se refere especificamente a sua profissão. Antes mesmo de conhecermos o mundo, somos questionados sobre nossos futuros trabalhos, quase sempre pautados na profissão dos nossos pais, ou em coisas que vemos na TV. Bom, então crescemos, estudamos e escolhemos uma profissão – que não necessariamente vai ser aquela que falamos quando perguntados os 7 anos. Mas é assim que acontece.

Porém, ocorre que nós não somos o nosso trabalho. Ele só existe para fazer a sociedade funcionar dentro do sistema que criamos. É com ele que fazemos a nossa vida andar. Trabalhamos, somos remunerados por isso, e assim geramos outros trabalhos da manufatura dos serviços que consumimos, esse é o sistema – Porém, é que é assunto para outro momento.

O fato é que amar o trabalho não é ocasional ou resultado da sorte, é uma escolha. Você pode não ter o trabalho mais incrível do mundo e mesmo assim amar o que faz. Apenas porque ele faz algum sentido para você – Talvez porque com ele você consiga pagar suas contas, viajar, se distrair ou, quem sabe, realizar um sonho.

Mas e se o trabalho fosse como uma roupa que você pode retirar, o que sobraria de você sem ele?

O conto sobre a roupa nova do rei que termina a história nu (Hans Christian Andersen), fala sobre como a vaidade nos deixa tolos diante da vida e nos faz contrariar até mesmo nossos sentidos. Nessa alusão, a roupa é o nosso crachá, vestimos o trabalho e deixamos que ele nos represente. Mas novamente você não é só o seu trabalho.

Temos muito mais a oferecer ao mundo do que a nossa mão de obra. Hoje estamos no outro lado daquela pergunta sobre “O que você quer ser” agora somos os adultos questionadores. Mas que tal mudarmos essa cultura e começar uma nova pergunta, tirar o “O que” e trocar pelo “Quem”

E da próxima vez que encontrar os amigos ou conhecer alguém, pergunte a sua comida preferida, qual foi a última série ou filme que assistiu, qual sua cor preferida. Fale sobre música, viagens, fale sobre quem você é e não o que você faz. Explore assuntos e permita conhecer as pessoas por quem elas são. Existem coisas tão importantes e que vão além do meu ou do seu trabalho.

Então, aproveita esse clima de reflexão e me conta… quem você é?

Quer ficar mais por dentro do assunto? No novo episódio do “Saí de Casa”, as apresentadoras, Luisa Accorsi e Manu Carvalho bateram um papo sobre essa cultura do crachá, e levantaram a bandeira do “Você Não é o seu trabalho”.

O episódio já está disponível abaixo e nas principais plataformas de áudio.

Por Sandro Christy