No dia 22 de agosto, chega aos cinemas brasileiros o filme italiano “Dafne”, sobre a vida de uma jovem com Síndrome de Down após a morte da mãe. O longa, estrelado por Carolina Raspanti, de Federico Bondi, acaba de ter o trailer divulgado, mas já venceu o Prêmio da Crítica na última edição do Festival de Berlim, em fevereiro deste ano.

Na tela, Carolina interpreta muitas passagens de sua vida real como Down. A independência da personagem, e da própria atriz, depende muito das habilidades física e emocional que ela desenvolve.

História da vida real

Assim como Carolina, David Ricardo, de 36 anos, com Síndrome de Down. Em um relato emocionante, a mãe do jovem, Helena Melo, narra as dificuldades diárias do filho. Para ela, o acompanhamento de um personal trainer é fundamental para a vida do rapaz – e não apenas para o corpo dele.

“Como todos aqueles que têm a síndrome, David é hipotônico, tem hiperflexibilidade articular, pouco equilíbrio e, além de tudo, era muito preguiçoso. Se não estimulado, ele engorda e, aí, qualquer estímulo fica mais difícil. David, além da síndrome, nasceu cardiopata, teve 42 pneumonias e precisava de muita estimulação constantemente. Ele cresceu fazendo exercícios, como natação. Depois, teve que ser submetido a um transplante renal. Na época, interrompeu toda carga de atividade física devido aos remédios imunossupressores. David chegou a pesar 89kg, foi assustador”, conta ela, que buscou um treinador para acompanhar o filho.

O professor amigo

Contratado pela família, o personal trainer Marcelo Santana foi muito além do papel de treinador físico. “O trabalho do professor Marcelo foi muito, digamos, lúdico e com muita paciência. O David começou a entender os movimentos e a fazê-los com muita seriedade e contentamento. A musculação melhorou muito a postura do David, que, depois, passou a andar na esteira, sempre com o professor Marcelo investindo nele, mudando os exercícios para conseguir uma performance melhor cada dia”, lembra ela.

Segundo a mãe, os benefícios para as pessoas com Síndrome de Down são inegáveis. “Quando um trabalho é bem feito e o profissional é competente e empenhado em melhorar o lado emocional e afetivo do aluno, pode dar um excelente resultado para a pessoa com Down. O exercício físico ajudou e ajuda muito David no seu dia-a-dia. O exercício físico, mais estímulo e cumplicidade do professor com o aluno, deram muito certo na vida do meu filho. Hoje, tenho um campeão graças à insistência e ao carinho do Marcelo Santana. Muito obrigada, professor”, finaliza a mãe.

Marcelo entende as melhorias observadas. “Cada vez mais, vou entendendo alguns princípios sobre prescrição de treinos e o que mais me chama atenção é a Individualidade Biológica. Ter um aluno com S. D (Síndrome de Down) me ajudou a evoluir, não somente como profissional, mas, principalmente, como ser humano. Nesses anos, tive várias conversas com a família do David, em especial, com sua mãe. Ela me ensinou que a criação do David foi rica em estímulos, ou seja, ele sempre teve atividades para agregar na evolução física e mental”, analisa Marcelo.

A independência

O profissional explica que compreendeu que não se tratava de treinar com “diferenças” e, sim, com uma periodização normal como qualquer aluno necessita para criar vários estímulos e não permitir adaptações ou zona de conforto. “Nesses 11 anos de treinos, alcançamos resultados incríveis, não só na estética, mas no lado cognitivo, com assimilação de movimentos. Chegamos ao ponto de ele realizar o treino sozinho (somente com supervisão)”, comemora.

Mais do que um aluno

De acordo com Marcelo Santana, uma dica para quem tem o “privilégio” de ter um aluno com Síndrome de Down é tratá-lo sem diferenças, manter uma aula com alto astral e, principalmente, rica tecnicamente. “Eu não ganhei um aluno, o David se tornou um irmão para vida toda”, conclui o professor.

Paty Moraes Nobre

https://jovempan.uol.com.br/guiasp

Jornalista e agitadora cultural, atuou como repórter em rádios como Jovem Pan e Band, videorrepórter na TV Cultura, editora de notícias, lifestyle, TV e Cultura nas empresas Globo.com, Editora Globo, Caras e Portal iG. Casada e mãe, escreve sobre gastronomia no Portal UOL, é colunista da Exame Vip, da Editora Abril, e coordenadora das plataformas Mulheres da Pan e Revista Guia SP, da Jovem Pan.

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