A contratação em uma vaga de emprego que a pessoa sempre quis. O lançamento de um primeiro livro. Um prêmio recebido por suas realizações. Tudo isso pode ser um problema para sete em cada dez pessoas que sofrem da chamada Síndrome do Impostor. “Vivemos em uma sociedade muito pautada pela obtenção de sucesso a qualquer preço e, com isso, as pessoas acabam se cobrando cada vez mais. E quando conquistam algo que tanto queriam, acabam se auto-sabotando e não acreditando de que eram capazes de conseguir”, explica Sergio Lima, psiquiatra e especialista em psicologia social pela USP.

Mulheres sofrem mais

De acordo com a pesquisa da Universidade Dominicana da California, cerca de 70% da população norteamericana, especialmente mulheres, acreditam que suas conquistas ou feitos são verdadeiras “fraudes”. Isso é a Síndrome do Impostor, quando a pessoa acredita que nenhuma conquista ou elogio é fruto de inteligência, competência ou habilidade pessoal. “Alguns recorrem a drogas, ao álcool ou substâncias que levem a buscar um sentido na vida por acreditar que o fracasso é inevitável”, alerta Sérgio Lima.

Para ele, o problema é mais frequente em mulheres do que em homens porque, desde sempre, existe a cobrança excessiva provocada pelo machismo e a crença de que os bons cargos e as situações de poder são dos homens. “Isso é um equívoco muito grande, que, infelizmente, ainda permanece na nossa história. Em alguns casos, é difícil as mulheres conseguiram combater isso e, quando combatem, obtém alguns resultados que podem levar à sensação de impostora”, detalha Sérgio Lima.

Como evitar

Palestrante TEDx, primeira psiquiatra brasileira com certificação internacional em Medicina do Estilo de Vida e coordenadora da Liga da Depressão da USP, Ana Paula Carvalho explica que, quem sofre com a síndrome, credita suas conquistas ao que chama de “sorte” ou “acaso”, nunca merecimento.

“Aceitar-se é a palavra chave. Aceitar a sua imperfeição e as suas limitações. Não somos super-heroínas e temos nosso limite. É importante estabelecer metas e conquistas passíveis de alcance, trabalhar a autoestima e a segurança, com ou sem a ajuda de um profissional”, diz Ana Paula.

Causas frequentes

Jovens em começo de carreira e pessoas com profissões competitivas (atletas, empresários e artistas, por exemplo) ou profissionais que passam por muitos testes são os mais suscetíveis para o desenvolvimento da síndrome, embora ela possa acometer pessoas de qualquer idade ou gênero. “Problemas de autoestima, desamparo afetivo e social e autocobrança em excesso são características comuns às pessoas que desenvolveram a Síndrome do Impostor que, não raramente, acompanha quadros de Ansiedade e Depressão”, sinaliza a psiquiatra.

Ainda segundo Ana Paula, buscar ajuda é essencial. “A frase é clichê, mas é verdadeira: juntos somos mais fortes. A pessoa que sofre com a síndrome do impostor precisa de terceiros que mostre que ela é, sim, capaz e merecedora de tudo o que conquistou”, pontua ela.

O papel das redes sociais

Para Sergio Lima, o universo virtual também tem sua parcela de peso no diagnóstico. “Acredito que o individuo deva ter uma vida menos pautada pelas redes sociais, mais presencial, mas humanizada, sem tantas cobranças consigo mesmo”, opina.

Para combater a síndrome, Sérgio Lima listou as seguintes atitudes:

  • Ter uma vida mais saudável
  • Tentar criar regras de tempo para alcançar seus objetivos
  • Conhecer lugares novos para “esfriar” as ideias
  • Evitar se comparar aos outros para não gerar incômodos consigo mesmo, aceitar suas limitações e ver que todo ser humano é passível de erros, podendo, assim, aceitar suas falhas.

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Como tratar 

Já instalado o quadro, recomenda-se a busca por profissionais da área, como psiquiatra ou psicólogo. “A Síndrome do Impostor não existe na classificação diagnóstica psiquiátrica, mas um quadro depressivo com características que possam estar motivando essa pessoa a ter essa sensação de impostora, sim. Tratando dessa depressão e verificando se o quadro não se trata de um transtorno psicótico, o ideal é iniciar uma psicoterapia e, se for o caso, associar um tratamento medicamentoso para se obter um melhor resultado”, orienta Sergio. “Além do acompanhamento por um profissional, é indicado ter um mentor no trabalho, alguém com quem possa compartilhar angústias e ideias profissionais, e um amigo com quem possa conversar”, acrescenta Ana Paula.

Famosas na lista

Celebridades internacionais, como Natalie Portman, Sheryl Sandberg, Emma Watson, Meryl Streep e Kate Winslet, por exemplo, já revelaram ter enfrentado o problema.

Pra fechar o tema, fica a máxima de uma mulher poderosa que admitiu ter sofrido da Síndrome do Impostor, Sheryl Sandberg, CEO do Facebook:

“Feito é melhor que perfeito” 

Paty Moraes Nobre

https://jovempan.uol.com.br/guiasp

Jornalista e agitadora cultural, atuou como repórter em rádios como Jovem Pan e Band, videorrepórter na TV Cultura, editora de notícias, lifestyle, TV e Cultura nas empresas Globo.com, Editora Globo, Caras e Portal iG. Casada e mãe, escreve sobre gastronomia no Portal UOL, é colunista da Exame Vip, da Editora Abril, e coordenadora das plataformas Mulheres da Pan e Revista Guia SP, da Jovem Pan.