Em menos de três décadas, iniciativas privadas e governamentais do Chile conseguiram converter áreas que tinham como principal foco econômico a exploração madeireira em parques nacionais prístinos que hoje ocupam ⅓ da área do país, geram empregos, beneficiam comunidades, o meio-ambiente e atraem visitantes para percorrer uma das mais cênicas rotas do planeta. 

 

Um dos roteiros de viagem mais cobiçados por apaixonados pela natureza é percorrer os 2.800km da cênica Carretera Austral chilena. A região que cruza ⅓ do país, de Puerto Montt a Cabo de Hornos, abriga imponentes geleiras, fiordes que conectam o oceano pacífico às montanhas sempre verdes, vulcões e picos nevados da cordilheira dos Andes. 

O que antes era uma remota região, com pequenas áreas de preservação, foi transformada em 2018 em uma das mais importantes áreas de conservação do país, a Rota dos Parques da Patagônia. A área surgiu através da instituição de 17 parques nacionais responsáveis por armazenar 3x mais carbono por hectare do que a própria Amazônia. 

A iniciativa é um exemplo de como a preservação e o turismo podem andar lado a lado. Mais ainda, a história evidencia que instituições privadas através de fundações legítimas, junto a um olhar consciente do governo, podem ter um papel fundamental na construção de um legado de sustentabilidade e desenvolvimento econômico para o país.  

A criação da rota e de inúmeros parques nacionais não aconteceu da noite para o dia, foi um processo de soma de desejos privados e políticas públicas. Começou em 1991, com o trabalho de um ativista ambiental e empresário norte-americano, Douglas Tompkins. O cofundador da Fundação Tompkins, inclusive, é considerado um dos grandes motivos para este projeto sair do papel. 

A cordilheira dos Andes na região da Patagônia Verde, em um sobrevoo em Chaitén. Foto: Virginia Falanghe.

 

O empresário e ativista norte-americano que transformou a história da região

 

Segundo porta-vozes da Fundação Tompkins, na década de 90, o ativista e empresário norte-americano Douglas Tompkins chega ao Chile para comprar terras ao norte da Patagônia com um único objetivo: preservar a área da exploração madeireira, a principal atividade econômica da região. 

O trabalho da antiga Tompkins Conservation (atualmente chamada de fundação Rewilding Chile), ao longo de três décadas, era de virar a chave da atividade econômica da região. Ao criar reservas florestais, moradores que antes dependiam da extração de madeira para a sobrevivência começaram a ser contratados como guardas florestais pela fundação para proteger as espécies de árvores alerces milenares que atraiam turistas para a região do Parque de Pumalin e Corcovado. 

O trabalho feito pela instituição transformou a comunidade, o meio ambiente e o desenvolvimento da área conhecida como Patagônia Verde. Em 2015, em uma conferência na região de Los Lagos, Douglas Tompkins conseguiu mostrar ao governo chileno a importância de estabelecer Parques Nacionais como motores das economias locais, que geram empregos vinculados ao turismo, comércio, serviços, conectividade e transporte, e favorecem o sentido de pertencimento das comunidades originárias. 

O Governo do Chile, compreendendo a importância da preservação da área e do impacto positivo de um turismo responsável, firmou o decreto que concretizou a doação de 403 mil hectares das áreas que pertenciam à Tompkins Conservation ao país, incorporou 985 mil hectares de terras fiscais e a reclassificou 2,6 milhões de hectares de reservas a Parques Nacionais. 

Os novos parques criados neste esforço colaborativo público-privado, somados aos existentes, deram vida a criação da Rota dos Parques da Patagônia: 11,8 milhões de hectares de áreas protegidas em 17 Parques Nacionais, equivalentes ao três vezes o tamanho da Suiça e o dobro da Costa Rica.  

O Parque Nacional de Pumalín, criado pela Fundação Tompkins. Foto: Virginia Falanghe

 

Conheça a Rota dos Parques da Patagônia

 

Neste roteiro pela Patagônia, a natureza é celebrada o tempo inteiro em 91% de território protegido. São 60 comunidades que se beneficiam destas proteções e que podem ser visitadas. Elas vivem e convivem com a natureza, colaborando com o equilíbrio ambiental. Também são comunidades que mantém viva a cultura das regiões, desde à pesca no oceano Pacífico à agricultura gaúcha nos Andes nevados. 

Uma das porta de entrada para o norte da Patagônia, também conhecida como Patagônia Verde, é a cidade de Puerto Montt, conectada a Santiago por 2h30 de voo operado pela LATAM. Também há a opção de iniciar o roteiro pelo sul, através do Parque Nacional Cabo de Hornos.

Para percorrer os mais de 2.800 km de extensão desta rota, o ideal é ir em um período sabático ou dividir entre pequenas viagens de uma semana. 

Os parques ficam abertos durante todo o ano, alguns cobram ingressos para atividades específicas, bem como pedem reservas. Nestes casos, indico que entre no site do parque que irá visitar para se planejar. Você pode realizar o percurso da Rota dos Parques da Patagônia com agências de viagem especializadas. Ainda há a opção de percursos de carro, trilhas andando e trechos de avião. Existem diferentes tipos de hospedagem, incluindo alguns dos melhores hotéis do Chile

Quanto à época, é melhor ir na baixa temporada, nos meses de novembro ou março.

 

Parques imperdíveis na Rota dos Parques

 

Os 17 parques na Rota dos Parques da Patagônia Chilena tem características distintas, mas possuem em comum cenários prístinos. Eles são divididos pelas regiões chilenas: região Los Lagos, Chiloé, Aysén e Magallanes. Confira abaixo um pouco sobre cada um dos parques:

 

Parques da Região Los Lagos

 

  • Parque Nacional Pumalín Douglas Tompkins. Criado em 2018, este é considerado um dos principais parques da Rota dos Parques. São mais de 400 mil hectares de área de uma floresta temperada. Cerca de 25% das espécies remanescentes do país se refugiam nesta área. Aqui você pode subir no vulcão Chaitén e admirar uma paisagem incrível. O parque abre diariamente durante todo o ano.
  • Parque Nacional Alerce Andino. Criado em 1982, a grande curiosidade deste parque está no fato de que ele permaneceu isolado por um longo tempo. Mas, o isolamento aconteceu devido ao gelo que cobria a área há 12.000 anos. O salto nos rios é um dos vários atrativos do parque que abre todos os dias do ano.
  • Parque Nacional Hornopirén. Com quase 70 mil hectares, este parque foi criado em 1988 e possui grandes áreas nunca tocadas pelo homem. Por isso, faz parte da Reserva Mundial das Florestas Temperadas do Sul dos Andes. Não deixe de caminhar até o Lago Pinto Concha e vislumbre os picos dos vulcões. Aberto diariamente nos meses de outubro a março.
  • Parque Nacional Corcovado. É o parque onde está o Vulcão Corcovado, ele está a 2.300 metros sob o nível do mar. Criado em 2005, o parque também possui muitas áreas inexploradas e está aberto diariamente, durante todo o ano.    

 

Rio Futaleufú, uma meca para os praticantes de rafting, na região da Patagônia Verde. Foto: Virginia Falanghe

Parques da Região de Aysén

 

    • Parque Nacional Queulat. Aberto diariamente, durante todo ano, este parque foi criado em 1983. As florestas perenes e andinas atraem os visitantes. Mas, a geleira suspensa é, sem dúvida, o ponto mais emblemático do parque. E, se quiser, ainda dá para acessar a cachoeira Salto Padre Garcia, com mais de 30 metros de altura.
    • Parque Nacional Melimoyu. O parque foi aberto em 2018 e é um dos oásis das baleias azuis. Além disso, acredita-se que é onde está a porta de entrada para a mítica Cidade dos Césares. O parque não está aberto para visitações.
    • Parque Nacional Isla Magdalena. Este parque tem acesso restrito e apenas marítimo, foi criado em 1983. Neste parque é possível observar espécies de pinguins e leões marinhos. No centro do parque, está o vulcão Mentolat a 1.660 metros.
    • Parque Nacional Cerro Castillo. O circuito de trekking ao redor de Cerro Castilho foi considerado um dos mais bonitos do Chile. E, por aqui, você admira lagoas de cor turquesa. O parque foi criado em 2017 e abre apenas na alta temporada.
    • Parque Nacional da Patagônia. Aberto diariamente, durante todo ano, o parque foi criado em 2018. A diversidade da fauna é abraçada pelo rio Chacabuco que desenha todo o vale. O parque faz parte de um dos principais projetos de restauração de ecossistema do país.
    • Parque Nacional Laguna San Rafael. Este parque criado em 1967, recebe visitas restritas. É perfeito para aventureiros que desejam caminhar pelo Glaciar Exploradores. O parque é a principal porta de entrada para o Campo de Gelo Norte.  

 

Parques da Região de Magallanes

 

    • Parque Nacional Bernardo O’Higgins. Este é o maior parque do Chile e um dos maiores do mundo. Os grandes atrativos deste parque são as 49 geleiras do Campo de Gelo Sul. É a terceira maior extensão de geleiras atrás apenas da Antártica e Groenlândia. O parque foi criado em 1969 e recebe visitantes nos meses de outubro a abril.
    • Parque Nacional Pali Aike. A vida selvagem neste parque é bastante ativa e você não deve deixar de visitar a caverna Pali Aike. A caverna foi declarada Monumento Nacional. O parque foi criado em 1970 e abre nos meses de outubro a abril.
    • Parque Nacional Kawésqar. Nas regiões de Puerto Natales e Punta Arenas, o parque criado em 2019, recebe apenas visitas restritas.
    • Parque Nacional Alberto de Agostini. No terceiro maior parque do Chile, você pode acessar uma montanha piramidal com cume glacial. O Monte Sarmiento esteve em “Vinte Mil Léguas Submarinas”. O parque foi criado em 1965 e abre de outubro a abril.
    • Parque Nacional Torres Del Paine. Aberto diariamente, durante todo o ano, o parque foi criado em 1959. É considerado a oitava maravilha do Mundo e reserva da biosfera pela UNESCO. Sua formação geológica atrai grande número de amantes da natureza, além de esportistas de aventura que desejam fazer trekking e escalada.
    • Parque Nacional Yendegaia. Este parque recebe visitas restritas e foi criado em 2013. Ele abrange as regiões de Punta Arenas, Cerro Sombrero, Villa Cameron, Porvenir e Puerto Williams.
    • Parque Nacional Cabo de Hornos. Este é o único lugar onde as águas do Oceano Pacífico e Atlântico se encontram. Criado em 1945, o parque recebe visitas de outubro a abril. O parque faz parte da Reserva da Biosfera do Cabo Horn, declarada pela UNESCO. É a primeira área selvagem protegida no Chile.

 

 

Passaporte da Rota dos Parques da Patagônia

O passaporte da Rota dos Parques da Patagônia é um documento para o viajante fazer anotações da sua experiência pela rota no Chile. Nele, o viajante tem informações sobre os parques nacionais, as comunidades ao redor e ainda registra seus momentos. É uma forma de preservar na memória a vivência na rota do parque da Patagônia e também ter um souvenir deste momento.

Cada vez que visitar um parque dentro da rota dos parques da Patagônia, você recebe um carimbo. É uma forma de mostrar por quantas áreas com histórias e ecossistemas distintos você transitou. Além disso, é uma forma metafórica de mostrar como você, visitante, se responsabiliza em não causar danos à natureza. Alguns dos compromissos firmados pelo visitante são:

 

  • Cuidar dos ecossistemas intocados;
  • Apoiar o desenvolvimento das comunidades;
  • Respeitar os costumes locais e tradicionais;
  • Planejar sua viagem para diminuir os desperdícios e resíduos;
  • Proteger a fauna silvestre e não alimentá-los;
  • Respeitar a paz dos parques, evitando barulhos e movimentos bruscos;
  • Caminhar pelas trilhas autorizadas;
  • Não usará fogos;
  • Cuidar para que outros viajantes também se mantenham comprometidos;
  • Respeitar as orientações dos guardas dos parques.

 

O passaporte da Rota dos Parques da Patagônia é gratuito e limitado. Para você garantir o seu, é preciso se registrar em alguns pontos de informação nos parques. Alguns deles são:

 

  • Na região dos Lagos faça o registro no Parque Nacional Alerce Andino ou no Parque Nacional Pumalín Douglas Tompkins. Também pode ir até OIT Puerto Montt (Antonio Varas 415, esquina San Martín, Puerto Montt).
  • Na região de Aysén se registre no Parque Nacional Cerro Castillo. Também é possível se registrar na Oficina Regional Sernatur Coyhaique. Entre outras oficinas.
  • Na região de Magallanes se registre no Parque Nacional Torres del Paine. Ou na OIT Punta Arenas e na OIT Puerto Natales (Pedro Montt 19).

 

Valle Califórnia, em Palena, Patagônia Verde. Foto: Virginia Falanghe.

Após o seu registro, você receberá uma mensagem no seu e-mail que deve ser apresentada ao guarda do parque. Assim, ele poderá te entregar o seu passaporte. 

Não esqueça que o seguro viagem com cobertura para COVID é obrigatório para entrar no Chile. 

 

Virginia Falanghe

https://vivaomundo.com.br/

Jornalista, apaixonada por viagens, natureza, aventuras e em compartilhar dicas para ajudar mais pessoas a viajarem mais e melhor. Quando não está viajando, está lendo, escrevendo ou falando sobre destinos do Brasil e do mundo. Já pisou nos cinco continentes e fez algumas paradas longas para morar na Austrália, Estados Unidos, Canadá e Portugal. Atualmente, mora em São Paulo e escreve dicas de viagens no site da Jovem Pan, integra a equipe do programa Mulheres da Pan como especialista em turismo e também é editora-chefe dos sites Dicas de Viagem, Viva o Mundo e Pousadas Incríveis  Uma boa leitura e ótimas viagens.