Falar sobre AIDS ainda é um tabu. O assunto normalmente surge no carnaval, com as campanhas para uso de camisinha, e durante todo o resto do ano pouco se lembra que ela existe – ainda mais agora, com todo o foco voltado para o coronavírus.

Na próxima terça-feira, dia 1º de dezembro, é celebrado o Dia Mundial de Combate à AIDS, e eu escolhi trazer esse tema para o blog para lembrar da importância dos cuidados com a saúde sexual.

Segundo dados do UNAIDS (programa da ONU especializada na epidemia), o Brasil tem andado na contramão da média mundial. Entre 2010 e 2018 houve um aumento de 21% em novas infecções por HIV, sendo que, no mundo, a doença registrou uma queda de 16% no número de novos casos.

E por quê isso está acontecendo por aqui?

  • Fala-se muito pouco sobre o HIV e a AIDS nas mídias, nas escolas, nas famílias e no governo, com isso, vemos desinformações e perpetuação de vários mitos e tabus relacionados a formas de contaminação, quem está sujeito a se contaminar e como funciona o tratamento, por exemplo;
  • Valorização da prevenção com uso de preservativos – O uso da camisinha masculina e feminina deveria ser um hábito automático, mas poucos filmes, séries e novelas (que tanto falam de sexo) mostram o uso da camisinha.
  • Preconceito – muitas pessoas ainda acham que existe um grupo de risco específico, estereotipado, e que quem está fora está a salvo. Mas é fundamental saber que existem muitos comportamentos de risco, e todos que não praticam sexo seguro podem se contaminar;
  • Referências de pessoas – como felizmente o Brasil tem um tratamento aos soropositivos de referência mundial, o número de mortes decorrentes da doença diminuiu, o que é ótimo, claro. Porém, por outro lado, principalmente os jovens, não viram os seus ídolos morrendo em função da AIDS e assim acham que não é mais uma doença grave e se descuidam.
  • Falta prevenção combinada – como a testagem regular para o HIV, que pode ser realizada gratuitamente no SUS; a prevenção da transmissão vertical (quando o vírus é transmitido para o bebê durante a gravidez); o tratamento das infecções sexualmente transmissíveis e das hepatites virais; a imunização para as hepatites A e B; programas de redução de danos para usuários de álcool e outras substâncias; profilaxia pré-exposição (PrEP); profilaxia pós-exposição (PEP); e o tratamento de pessoas que já vivem com HIV. É bom lembrar que uma pessoa com boa adesão ao tratamento atinge níveis de carga viral tão baixos que é praticamente nula a chance de transmitir o vírus para outros. Todos esses métodos podem ser utilizados isoladamente ou combinados.
  • Afeto – além do pouco incentivo ao uso dos preservativos, é preciso que este foco não seja apenas no “use camisinha”. É preciso trazer conhecimento (informação + afeto + valores) de como usar, em que momento usar, qual tipo, em que modalidade sexual (oral, vaginal, anal). Autoestima, autoconhecimento e respeito também são temas que não podem ser esquecidos. Muitas vezes a falta do uso do preservativo acontece por não se conseguir dizer “não” a um/uma parceiro(a) que faz chantagem emocional, ou por medo de perder a ereção e o clima da relação.
  • Aliar ao combate às drogas – muitos jovens e adultos não usam preservativo por estarem sob o consumo de drogas, incluindo o álcool (muito comum nas baladas, raves, HPs -house partys, festas em casa) e não lembrarem, ou mesmo ignorarem a importância da proteção.

 

Vamos ajudar a mudar esse cenário?

Falar sobre a AIDS e o HIV é tão importante quanto se prevenir. Eduque crianças e adolescente sobre o uso da camisinha, que não é apenas uma forma de evitar a gravidez, mas sim várias IST’s!

 

paulanapolitano

Psicóloga clínica, pós graduada em Terapia Sexual e em Terapia Cognitivo Comportamental. Também é autora do livro "Sexplicando: sexualidade sem mitos e tabus".