Recebo no consultório muitas queixas de mulheres por sentirem dor na hora do sexo, os níveis da dor são variáveis, algumas inclusive não conseguem nem chegar a ter penetração. De acordo com a Pesquisa mosaico 2.0 da Dra. Carmita Abdo, psiquiatra e sexologa da USP, 2016, este problema de dor na penetração atinge 40% das mulheres.

Se você faz parte dessa estatística, a primeira recomendação que te dou é: vá ao seu médico ginecologista. É preciso ter um diagnóstico para entender se este é um problema físico ou psicológico – e aí cabe procurar um terapeuta sexual.

Entre os problemas mais comuns estão a vulvodínia (dor na vulva, na maioria das vezes com causas físicas), vaginismo (contratura da musculatura da vagina, involuntariamente, frequentemente por questões psicológicas) e dispareunia (dor na penetração no fundo da vagina, que pode ser uma mescla de causas físicas e/ou psicológicas).

Entender o motivo da dor também é muito importante: há situações de abuso sexual, repressão sexual, questões religiosas, brigas e problemas no relacionamento, associação de histórias de que homem é mau (o que leva à falta de confiança e faz com que a mulher se retraia, “fechando” a vagina), controle/perfeccionismo. Medo de sentir dor, de engravidar, de perda de controle, de compromisso, de repetir experiências negativas anteriores, do que outras pessoas irão pensar e causas físicas também influenciam e atrapalham. Na maioria das vezes é um conjunto desses fatores.

Se você relatou que sente dor e alguém de falou para continuar tentando, “vai lacear e melhorar”, corra!

A cada tentativa forçada o incômodo será maior, e o cérebro, que sempre tenta proteger, irá provocar ainda mais contração. O resultado poderá ser de ainda mais dor, além de uma possível diminuição da excitação (lubrificação) e até mesmo do desejo sexual. Justamente por associar a relação sexual a algo negativo (dor, incomodo, frustração), a mulher pode acabar evitando até os beijos, pois os relaciona como preditivo para o sexo.

Esqueça o popular “toma um vinho, relaxa e vai”. Se você tem dor, procure ajuda especializada. E se a penetração não está acontecendo, use e abuse do corpo inteiro, da masturbação mútua, do sexo oral, e do que mais a sua criatividade permitir, afinal de contas, a penetração é uma das possibilidades da sexualidade e não a única.

paulanapolitano

Psicóloga clínica, pós graduada em Terapia Sexual e em Terapia Cognitivo Comportamental. Também é autora do livro "Sexplicando: sexualidade sem mitos e tabus".