Quando o autismo do Maneco deixou de ser uma hipótese para virar diagnóstico, meu cérebro acionou um mecanismo de autoproteção emocional. Até já contei isso por aqui: o primeiro passo foi encarar o TEA quase como um superpoder.

Mas o fato é que muita coisa muda na gente quando descobre a deficiência de um filho. Eu, que sempre fui tão refratária ao politicamente correto, de repente precisei admitir para mim mesma que achava algumas palavras pesadas demais.

A linguagem é um código que carrega mensagens explícitas e implícitas e cada palavra tem seus significados objetivos e subjetivos. “Deficiente”, por exemplo, é um adjetivo que eu particularmente custei muito a aceitar.

Não adianta querer dissimular meus defeitos e bancar a perfeitinha. Se a palavra “deficiência” me incomodava tanto é porque, no fundo, minha visão do deficiente era de alguém meio quebrado, uma pessoa incompleta, um ser humano com defeito.

Pejorativa era a minha ideia, não a palavra.

As variantes “especial” e “excepcional” também me machucavam porque, já pressentindo as diferenças, eu queria mesmo era ouvir que meu filho era uma criança “normal”, “igual”, “comum”. A vontade era responder “especial é a mãe!”

“Normal”, aliás, é uma palavra que deixei de usar não porque ache preconceituosa, mas porque entendi que não é muito precisa. Descobri “neurotípico” e seu antônimo “neurodiverso”, ou “neurodivergente”, que exprimem muito melhor a deficiência mental.

Por outro lado, há palavras que incomodam porque são a própria expressão da condescendência, que é o preconceito photoshopado, como definiu brilhantemente uma grande e sábia amiga minha.

É o caso de adjetivos supostamente positivos, como “puro”, “inocente”, “sem maldade” e o famigerado “anjo azul”. Independentemente da intenção de quem diz, são expressões cujo sentido reduz, inferioriza, diminui o autista a quem se referem.

As coisas são o que são. Se a deficiência é um fato, lide com ele, mas pare de dourar a pílula! E quando se sentir incomodado com uma palavra, procure examinar se o preconceito está nela ou em você.

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.