“A gente sofre mais como viajantes por causa da sexualização da mulher negra, aquela imagem do carnaval, sempre de biquíni, de fantasia, do turismo sexual. Acaba que a gente sofre um assédio muito maior como turista, principalmente de estrangeiros”, lamenta Débora Pinheiros, de 26 anos.

Basta ouvir os relatos e tentar se colocar no lugar da Débora diante das situações descritas por ela para entender que mulheres negras sofrem mais ao viajarem desacompanhadas. Uma realidade que já tem seus agravantes para o público feminino, acaba sendo ainda mais desafiadora quando entra em jogo a aparência. E precisamos falar sobre isso!

Racismo 

Recepcionista, Débora viaja há seis anos sozinha pelo Brasil e coleciona inúmeras fotos em seu perfil do Instagram dos lugares maravilhosos que visitou. O que, infelizmente, Débora também contabiliza nesses anos todos são atitudes cheias de preconceito e racismo que ela sofreu de norte a sul do País.

Em Florianópolis, em Santa Catarina, por exemplo, três garçons se negaram a atendê-la em um restaurante. “Fiquei esperando uns 30 minutos e, inconformada, fui perguntar o que estava acontecendo. Eles estavam atendendo todas as outras mesas, mas não vieram até mim em nenhum momento. A desculpa foi que ‘não tinham me visto'”, recorda. “Peguei minhas coisas e fui embora”.

O preconceito se repetiu em outra situação no litoral do nordeste brasileiro. “Tem a questão das pessoas não te verem como turista, mas como alguém do serviço de hospedagem, que está trabalhando. Uma vez, em Tamandaré (Praia dos Carneiros, em Pernambuco), estava deitada de biquíni na areia e veio uma turista perguntar qual era o valor da água de coco. Eu estava um pouco próxima da barraca, mas será que se eu fosse uma mulher branca, no mesmo lugar, ela faria a mesma pergunta?”, questiona.

 

Assédio

Do Maranhão, Débora diz ter as piores lembranças como viajante solitária. “Sofri um assédio muito forte. Amigas minhas, brancas e negras, também comentaram o mesmo problema lá. Numa cidadezinha chamada Carolina, tinha um único mercado. Como viajo de mochilão pra economizar, era lá que fazia as compras. Mas, toda vez que ia ao mercado, o atendente pegava na minha mão e não largava. Dizia: ‘Você é muito bonita e não vai embora.  Vai casar comigo’. É muito cansativo passar por essas situações no mesmo lugar. Não voltei ao mercado e passei a gastar mais em outros lugares para comer”, conta.

“Nas minhas viagens, minha postura é evitar o lugar onde não fui bem tratada, não voltar mais, e também deixar bem claro que não é não“.

 

Negras Viajantes

Apaixonada pelos destinos que visita – e ainda quer visitar -, Débora não se deixou abater e passou a ser também uma consultora de turismo da agência Vamos, especializada em experiências para o público exclusivamente feminino. Ela também faz parte do coletivo Bitonga Travelprojeto para incentivar mulheres negras a conhecer não só o mundo, mas também suas próprias cidades, empoderando-as e, desta forma, aumentando sua visibilidade e autoestima.

“Infelizmente, por fatores econômicos, acredito, a gente vê muito menos mulheres negras viajando sozinhas”, diz.

A condição da mulher negra se justifica em números. Em março de 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que se para as mulheres brancas a queda na ocupação de postos de gerência foi de 1,2 ponto percentual entre 2012 e 2016 — passando de 39,7% para 38,5% dos cargos —, para as negras foi de 4,7 pontos no mesmo período — caindo de 39,2% para 34,5%. As mulheres negras também têm salários menores, tanto em relação a homens e mulheres brancos quanto em relação a homens negros.

Segundo estudos do Bitonga Travel, as mulheres que conseguem delegar mais as tarefas domésticas são as de classes sociais mais altas, em sua maioria mulheres brancas. Portanto, uma mulher negra viajar pelo globo terrestre, e sozinha, é uma forma de ascensão social e de diminuir margens.

Dicas

  • Se você vai começar a viajar, procure mulheres que viajam no mesmo estilo que você. Se você é negra e quer fazer uma viagem econômica, o ideal é achar alguém que tenha o mesmo estilo. Hoje, tem muitas redes de apoio para mulheres que viajam sozinhas nas redes sociais, por exemplo;

 

  • Se permita, mas tome os mesmos cuidados que você tem na sua cidade, no seu dia a dia. Avise sempre alguém de confiança sobre onde está indo, ou compartilhe com amigos e parentes o contato do último lugar onde esteve e pra aonde vai;

 

  • Não aceitar nada de estranhos numa balada também ajuda a se proteger. Você pode beber, mas tenha consciência do limite do seu corpo. No caso de sair à noite, lembre-se se vai votar sozinha, por exemplo.

 

 

“Acredito que viajar é a melhor forma de autoconhecimento”, finaliza Débora.

Paty Moraes Nobre

https://jovempan.uol.com.br/guiasp

Jornalista e agitadora cultural, atuou como repórter em rádios como Jovem Pan e Band, videorrepórter na TV Cultura, editora de notícias, lifestyle, TV e Cultura nas empresas Globo.com, Editora Globo, Caras e Portal iG. Casada e mãe, escreve sobre gastronomia no Portal UOL, é colunista da Exame Vip, da Editora Abril, e coordenadora das plataformas Mulheres da Pan e Revista Guia SP, da Jovem Pan.

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