Vamos falar de churrasco porque temos alguns motivos para festejar em torno da brasa!

A presença de mulheres no comando da churrasqueira em muitos eventos e restaurantes não é novidade já há algum tempo.

Claro que ainda existem mais homens na área. Em festivais de carne, por exemplo, eles são cerca de 80% dos chefs de estações. Nessas festas, a maioria das mulheres atua como assistentes ou fica limitada ao preparo de acompanhamentos e doces.

Mas, apesar da representatividade feminina no churrasco ser ainda semelhante a outras atividades culturalmente masculinas, algumas assadoras romperam a barreira do preconceito e se lançaram como churrasqueiras nos últimos anos no Brasil.

Após muitos cursos, horas de fogo e trabalho árduo, elas conquistam o respeito, inclusive, de muitos colegas da mesma profissão que torciam o nariz para a presença feminina no churrasco.

Para homenageá-las, conversamos com 5 assadoras profissionais que conquistaram espaço de destaque no segmento do churrasco. Em comum, todas citam o machismo e a persistência como ferramentas para chegar lá.

 

Camila Miyahara
(Chef responsável do restaurante especializado em carnes Quintal do DeBetti, em São Paulo)

“Descobri meu gosto pela cozinha cedo. As reuniões de fim de semana em família sempre giraram em torno da comida. O churrasco em casa quem fazia era meu pai ou meu avô, e as sobremesas ficavam por conta das mulheres. Naturalmente influenciada, quando cursei Gastronomia, fui para a confeitaria. Não odiava, mas não estava feliz. Resolvi mudar de área e me formei também em Comércio Exterior, que, apesar de me fazer crescer muito pessoal e profissionalmente, me mostrou que, definitivamente, a vida de escritório não é pra mim… me sentia presa. Foi quando me redescobri e percebi que o que não se encaixava era a confeitaria e, não, a gastronomia em si. Comecei a me identificar com a cozinha quente e a trabalhar na praça de proteínas (carnes) de alguns ótimos restaurantes. Tanto na Nova Zelândia quanto no Brasil”.

As mulheres da família continuam fazendo as sobremesas, mas quem faz o churrasco da família agora sou eu

“Apesar de sempre me dar bem com os cozinheiros, quando subia as escadas carregando o saco de carvão, eles sempre olhavam para mim com uma certa indignação. É ainda um ramo muito masculino e o fato de eu ter 1,5m de altura e uma aparência delicada fez com que as pessoas nunca esperassem muito de mim. Fui aprendendo a tomar meu espaço. Infelizmente, o assédio está muito presente no mundo todo e nas churrascadas (festas da carne) e tem caras que usam da força para impor algum tipo de dominância. Tenho uma personalidade forte, sem “mimimi”. Você vai me ver com as mãos pretas de carvão e um sorriso no rosto de estar fazendo o que eu amo no meio de tanta gente que manda bem. As mulheres da família continuam fazendo as sobremesas, mas quem faz o churrasco da família agora sou eu”.

Larissa Morales
(Primeira mulher a ter um perfil no Youtube especializado em churrasco, o Larica na Brasa)

“Infelizmente, ainda existe preconceito no meio do churrasco. Como mulher no comando de eventos e festivais, percebo uma certa resistência de alguns colegas de equipe. Por exemplo: Quando peço para realizarem alguma tarefa, me deparo com uma certa resistência, ou ouço coisas do tipo ‘do outro jeito é melhor do que esse’. Além disso, ainda recebo comentários em minhas redes sociais dizendo que isso não é coisa de mulher, que eu não sei o que estou fazendo. Hoje, consigo perceber um reconhecimento devido ao meu trabalho ao longo dos anos, aos meus resultados e à minha dedicação. E, além disso, é nítido todo o retorno que tenho alcançado pelo meu esforço de me especializar cortes de grelha, método tradicionalmente adotado no Brasil e mais rápido de cocção”.

Nubia Signorini
(Especializada em defumação no pit e cocção com calor direto nas técnicas de varal e parrilla)

“No começo da minha carreira, as pessoas não estavam tão habituadas a ver churrasco como “evento” gastronômico. E, por estarmos numa sociedade machista, o trabalho da mulher não era visto com respeito. Até porque o churrasco era coisa de final de semana e toda família tinha um ‘homem’ churrasqueiro. Eu vim de restaurante e percebi o preconceito no meio a ponto de estar no comando de um evento e um convidado direcionar pergunta sobre processo ao meu auxiliar dizendo que queria a resposta do “chefe” churrasqueiro. Com o tempo, as pessoas têm entendido que esse universo não é exclusivo dos homens e vejo que o respeito, tanto dos colegas quanto dos consumidores e clientes, tem aumentado. O aumento no número de mulheres à frente de eventos e restaurantes de carne provou nossa capacidade, mostrando que não somos melhores nem piores. O resultado do prato não está no sexo da pessoa e, sim, na sua capacitação“.

Ligia Karazawa
(Chef executiva do restaurante Brace, do Eataly Brasil)

“Fui criada no interior, meu avô tinha fazenda de gado e fazíamos churrasco. Naquele tempo, ainda era um ambiente mais masculino, mas sempre ficava de olho, aprendendo com meu pai a fazer churrasco porque ele sempre deixava a gente ajudar. Preconceito, infelizmente, nós sofremos em todas as áreas e no churrasco não é diferente. Não botam fé que a gente consegue assar 100 kg de carne num festival, por exemplo. Nada melhor do que demonstrar na prática para calar a boca de alguns marmanjos (risos). Faz 20 anos que cozinho e acho que essa barreira do preconceito a gente ainda tem que saber superar”.

Fabiana Rodrigues
(Especializada em churrasco de carnes e vegetais)

“Venho de uma família de cozinheiras e cozinhar faz parte de quem nós somos. Quando decidi que largaria meu emprego administrativo para me tornar também uma cozinheira profissional, conheci o chef Reinaldo Lee, que dava cursos de Korean BBQ (churrasco coreano). Fiquei encantada com as infinitas possibilidades e técnicas para preparar churrasco que eu julgava ser uma coisa muito simples. Depois disso, descobri que existiam muitas outras modalidades de churrasco: American BBQ, Fogo de chão, Varal de defumação, infernillo, etc. Fiquei completamente apaixonada pelos diferentes sabores e texturas que o churrasco pode ter, como as carnes consideradas ‘de segunda’ brilhando no prato”.

Paty Moraes Nobre

https://jovempan.uol.com.br/guiasp

Jornalista e agitadora cultural, atuou como repórter em rádios como Jovem Pan e Band, videorrepórter na TV Cultura, editora de notícias, lifestyle, TV e Cultura nas empresas Globo.com, Editora Globo, Caras e Portal iG. Casada e mãe, escreve sobre gastronomia no Portal UOL, é colunista da Exame Vip, da Editora Abril, e coordenadora das plataformas Mulheres da Pan e Revista Guia SP, da Jovem Pan.

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