Quando fui promovida a mãe, seis anos atrás, passei a viver em outro compasso: ansiedade a cem por hora e disposição a mil. Com o diagnóstico de autismo, no entanto, o nervosismo até então comum virou um vulcão em franca atividade, expelindo lava pra todo lado.


Assim como a culpa, a preocupação com o futuro definitivamente não é prerrogativa única de pais atípicos, todo mundo sente.
Mas, por motivos óbvios, ter um filho deficiente traz medos muito palpáveis sobre o amanhã.


Como vai ser quando eu morrer? Ele vai falar? Fazer faculdade? Vai poder trabalhar e se sustentar? Poderá morar sozinho?
Conseguirá se locomover por conta própria? Saberá usar dinheiro? Procurar o médico quando não se sentir bem?


As perguntas que atormentam cada pai e cada mãe variam bastante conforme o autismo do filho e o grau de suporte de que ele necessita.
Há aqueles para quem a angústia é bem mais básica. Quem cuidará para que meu filho tome banho e não se machuque quando eu não estiver mais aqui?


Toda essa apreensão é muito legítima e muito compreensível, mas não adianta de nada e ainda pode agravar um quadro familiar já tão complexo.
O que ajuda é procurar tratamento específico e tomar medidas práticas para assegurar a parte econômica, por mais difícil que seja.


Mas é fundamental aprender a respirar fundo e viver um dia de cada vez porque a gente não é dono do futuro.
Se for para ser horrível, que demore o máximo a chegar. Se for para ser ótimo, vai ser um prazer quando vier.


Se eu pudesse, voltaria agora mesmo àquele estado mental de quando Maneco era só um bebê e não pairava sombra de dúvida sobre o quão brilhante ele seria quando crescesse.
Já que isso não é possível, escolhi finalmente entender o valor do hoje.


O que perdi em tempo e dinheiro ganhei em força e coragem. O que perdi em sono ganhei em abraço. O que ganhei em medo ganhei também em esperança.
Acompanhar o crescimento de um filho e dividir com ele essa caminhada é um presente grande demais, pelo qual serei eternamente grata.

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.