No começo é duro. Da época em que descobri o autismo do Maneco, lembro nitidamente da impressão de estar vivendo debaixo d’água, sem conseguir enxergar ou respirar direito.

Tinha muito medo do futuro, daquele medo que nasce junto com o filho: vê-lo sofrer. A culpa vinha me visitar, com sua caixinha de torturas: “ele é assim porque você fez/pensou/comeu/não comeu não-sei-quê”.

Eu a enxotava aos gritos, lembrando a mim mesma que “assim” é ele; ele é meu filho, sangue do meu sangue; e o que importa é que seja saudável e feliz. Não me permiti negar o diagnóstico porque sentia no fundo do peito que, se rejeitasse sua condição, estaria rejeitando meu filho junto.

Claro que a culpa é uma entidade onipresente na vida de toda mãe, não é exclusiva da maternidade atípica. Mas ter nas mãos um laudo médico, com carimbo e assinatura, amplifica a tentação em justificá-la. Corre, Bina, é cilada!

Ser autista é ter um cérebro com conexões diferentes, não necessariamente piores ou melhores. Não é um incapaz, mas também não é obrigatório ser o Rain Man.

Ser autista significa que ele terá muito interesse em poucos assuntos e provavelmente encontrará dificuldade em interagir e se comunicar porque não sabe ler os subtextos das relações ou compreender expressões faciais.

Significa que ele vai ter complicações sensoriais importantes, sentindo demais ou de menos. Isso vai moldar boa parte do seu comportamento e ele vai ter de aprender a conhecer suas necessidades e controlar os estímulos a que se expõe.

E significa ainda que ele tem estatisticamente mais chances de ter outras condições ao mesmo tempo, como TDAH, por exemplo. E que eu vou ter de identificar quais são as dele porque, por enquanto, ele é só uma criança.

Mas ser autista também quer dizer que ele terá enorme prazer em se dedicar incessantemente ao seu assunto de interesse, o chamado hiperfoco, de modo que são grandes as chances de que ele fique bom nisso.

Quer dizer que ele terá maior capacidade de ver padrões e enxergar detalhes do que as pessoas à sua volta. Que ele será naturalmente desapegado das coisas materiais e encontrará alegria nas coisas simples.

Perfeição não existe, ou então haveria de ser um conceito pessoal e intransferível. Dito isso, do alto do seu autismo, meu filho é perfeito. Perfeito pra ele, perfeito pra nós, na justa medida do amor. É TEA e tá ótimo, porque não tem um jeito certo de ser; certo é o jeito que a gente é.

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.