Ela tem só 26 anos, mas um currículo brilhante que inclui uma formação em ciências políticas e astrofísica pela Universidade de Harvard e uma indicação pela BBC ao título de uma das 100 mulheres mais influentes do mundo.

Deputada federal eleita por São Paulo, já esteve debatendo questões cruciais com personalidades como Barack Obama e a Nobel da Paz Malala Yousafzai. Já seriam enormes conquistas para uma jovem, ainda que não se olhasse o seu lugar de partida: a Vila Missionária, na periferia paulistana, filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus. Tudo isso impressiona sim, mas o que surpreende é a voz doce e os hábitos simples de uma verdadeira guerreira.

Tabata Amaral abriu sua casa e um espaço na sua concorrida agenda para conversar com a gente sobre seu dia a dia nessa pandemia.

“Na verdade, meu maior desafio foi encaixar o que preciso fazer em 24 horas. Além do trabalho na câmara dos deputados, estou ajudando ONGs e instituições que estão 100% focadas em levar dignidade, informações e o básico para as populações mais vulneráveis e expostas nas favelas e periferias do Brasil. Além disso, eu que sou acostumada a comer marmita no gabinete, tenho que fazer meus almoços e a quantidade de louça aumentou, então é também um desafio continuar cuidando de mim”.

Qual é o sentimento que mais predomina nesse momento?

“É muito angustiante ver o que está acontecendo no país porque não é só uma crise sanitária de grandes proporções e com um grande número de mortos, mas é também uma crise social e econômica, muito agravada por uma crise política e penso que nosso país não precisava sofrer tanto, que a gente poderia ter passado por isso de uma forma muito melhor”.

A maior dificuldade, no entanto, está na ausência do contato direto com as pessoas.

“Sou uma pessoa que gosta muito de abraçar, de estar junto. Mesmo que eu esteja conectada com bastante gente, não é igual. A primeira coisa que quero fazer é ir a um café pra ver gente, ir no cinema, me encontrar com os amigos e valorizar isso, que está fazendo tanta falta nesse momento”.

Ainda no começo da pandemia, Tabata criou um clube de leitura no Instagram, o @nossolugardeleitura.

“Lá tem 12 livros para pensar esse momento de forma mais ampla. Lemos 75 páginas por semana juntos, aos sábados, e temos centenas de pessoas no país participando. Sou apaixonada por livros”.

Outras recomendações dela são os filmes ‘Escritores da Liberdade’ e ‘Como Estrelas na Terra’, ambos do Netflix. “São bons para a gente se inspirar, para não abandonar a batalha”, comenta.

O que acha que vai mudar depois dessa experiência?

“É mais fácil falar sobre esperança do que sobre certeza nesse momento, então espero que a sociedade seja mais solidária do que é hoje, que gente esteja mais ciente dessas tantas desigualdades que marcam nosso país, valorize mais a educação e o conhecimento. Afinal, apesar das fake news e barbaridades, estamos todos esperando por uma vacina. Espero que profissionais que se mostraram tão essenciais, como cientistas, educadores, enfermeiras, sejam mais valorizados no pós-pandemia”.

Ela acredita também que o ‘novo normal’ vai chegar de forma gradual.

“Pelo menos nos próximos anos as coisas vão ser diferentes. Dificilmente vamos acordar com todo mundo imunizado, vamos ter que aprender a fazer a transição, onde estaremos junto com as pessoas, mas precisaremos usar máscaras, álcool em gel”.

Com relação à educação, uma de suas principais bandeiras enquanto deputada, ela explica. “As crianças devem voltar a estudar, mas talvez nem todos vão poder voltar para a escola. Vamos ter que continuar lutando pela internet em todas as redes educacionais”. E finaliza.

“A sociedade vai estar ainda mais desigual. Espero que seja um momento de reflexão, de construção de uma sociedade que vai estar mais preparada para enfrentar crises como essa e menos disposta a tolerar que tantas pessoas sejam deixadas para trás sempre”.

Precisamos de muitas Tabatas nesse novo mundo.

virnawulkan

Virna Wulkan é jornalista há mais de 20 anos, tendo trabalhado para algumas das maiores redações do país como UOL, Estadão (foram 9 anos como colunista no Suplemento Feminino), Contigo, Playboy e VIP. Além de ter sido colaboradora de veículos como Portal Caras, Glamurama, Marie Claire, Claudia, Boa Forma, entre outras. Sua expertise gira em torno de assuntos ligados à moda, beleza, entretenimento e celebridades – já entrevistou desde Kim Kardashian e Anitta, até Vitor Belfort e Juju Salimeni. Porquê todo mundo tem boas histórias para contar.