Começo nossa conversa hoje pedindo desculpas pela ausência no último mês. O isolamento aqui bateu com força e cobrou sua conta; precisei parar para reorganizar. Espero que esteja tudo bem por aí e que você esteja segurando as pontas ou conseguindo parar para reorganizar.

Agora voltando à vaca fria, ou à cama fria: entre as particularidades extremamente frequentes entre indivíduos no espectro, uma das que mais tiram o sono dos pais – literalmente! – é a dificuldade de dormir. Seja na hora de adormecer ou de atravessar a noite toda sem acordar, fato é que são problemas prevalentes.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e reunidas na biblioteca americana de medicina indicam que entre 44% e 86% das crianças autistas apresentem dificuldade para pegar no sono ou mantê-lo durante toda a noite. Entre crianças neurotípicas, esse percentual varia de 10% a 16%.

Não encontrei estudos nacionais sobre o assunto, mas bastou uma busca rápida entre colegas mães neurodiversas e autistas adultos que acompanho nas redes sociais para concluir que tudo indica que esse cenário seja universal e que não passa com o avanço da idade.

A ciência ainda não se debruçou o suficiente sobre esse assunto para apontar as causas do problema, mas os principais suspeitos são velhos conhecidos. O primeiro é o transtorno do processamento sensorial, por exemplo, que bagunça os sentidos e pode amplificar demais o mínimo barulhinho ou fazer uma pequena dobra no lençol parecer uma montanha.

Além do TPS, a mente superestimulada, como se fosse um navegador de internet com infinitas abas abertas ao mesmo tempo, também é um provável complicador do sono nos autistas. Se para qualquer pessoa é difícil dormir com a cabeça cheia, imagina para quem funciona assim 24/7?

Durante a quarentena enfrentamos ainda duas dificuldades extras: a quebra da rotina de escola e terapias, que pode deixar todo o calendário meio confuso, e a pouca prática de atividades físicas, fundamentais para aprimorar a coordenação motora e, principalmente, gastar energia acumulada.

A má notícia é que, também como acontece com todo mundo, esse sono perdido faz falta para os autistas: dificulta o aprendizado e os deixa mais suscetíveis a alterações de humor, por isso recomendo vivamente aos pais que invistam em encontrar soluções porque a diferença salta aos olhos.

Médico e terapeutas podem orientar alternativas mais leves, mas aqui, depois de muito tentar, ponderar e hesitar, decidimos entrar com medicação. A boa notícia é que alguma delas vai funcionar.

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.