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Depois de ter chegado aos 100kg e voltado pra te contar, decidi mostrar com mais detalhes como é que isso aconteceu.

     Quando eu já tinha desistido de perder os muitos quilos que eu havia adquirido nos últimos anos, uma amiga da pesada como eu, apareceu mais magra e alegrinha, sacudindo um iogurte zero açúcar, o que intimamente, por mais que eu a adorasse, me deixou com uma inveja profunda.

     Ter engordado por conta de remédios para depressão me fez entrar em depressão por ter engordado e eu não achava que seria possível sair desse ciclo infernal (engordei porque deprimi ou deprimi porque engordei?). Era assim que eu me justificava quando encontrava alguém que não via há algum tempo: pois é, tomei uns remédios pra depressão que me fizeram engordar. E fazia cara de coitada. Foi com esse discurso que entrei na clínica de emagrecimento que essa mesma amiga me indicou, quando eu perguntei qual era a mágica.

     Eu havia tentado antes algumas dietas à base de gastar fortunas no Mundo Verde, cortar o glúten, a lactose e a felicidade. Eu até perdi 3kg e cheguei a me achar linda. Anos depois fui me dar conta que a humanidade só perceberia que eu tinha perdido algum peso a partir dos 10kg. Mas o fato é que comer batata doce com canela em jejum não foi sustentável por muito tempo e eu voltei para a batata palha de braços abertos.

     Eu tinha me matriculado na academia e devido ao advento do personal trainer do bom papo, eu estava me exercitando para valer. O resultado foi uma melhora nas minhas taxas de colesterol, da glicemia e nas dores nos joelhos, mas nada em quilos ou diminuição do corpinho.

     Tem gente que engorda no bumbum. E tem gente que engorda na barriga, como eu. São quase espécies diferentes. Ambos acham que estão do lado mais desfavorecido. Eu tenho certeza que estou. Eu passei a seguir influencers plus size e não me identifiquei nem com elas! Todas tinham a barriga reta (como é possível?) com o corpão contra-baixo. Tudo caía bem, super sensuais. E eu de bata, disfarçando meu abdome avantajado com duas perninhas finas embaixo.

     Mas voltando a clínica de emagrecimento. Cheguei toda trabalhada na pena de mim mesma e nas desculpas por ter embalofado. Foi então que me disseram a primeira verdade que mudou minha vida: querida, você engordou, porque comeu. Como assim? Mas eu quaaaaseee não como, aliás me alimento super bem! Eu como arroz, feijão, carne, legume, salada, fruta, macarrão, chocolate, pudim, pedra… Pois é, você comeu. A nutricionista me passou uma dieta bem simples, de comprar em qualquer supermercado, instruções muito claras e um balança pequenininha. Eu olhei para ela e pensei: “eu não caibo aí”. Então a nutri disse: a partir de agora você  vai pesar tudo que vai comer.” Oi? “Se tiver 2g a mais no papaia, você vai tirar e jogar fora.” Que desperdício, meu Deus! (lembrei envergonhada que com essa desculpa comia os restos do prato e dos lanches do meu filho constantemente). A partir dali parei de pensar tanto no que iria comer e a seguir a regra obstinadamente. A parte que mais me apavorou foi como eu iria me organizar, como iria separar minha alimentação da do meu filho e do meu marido, como enfrentar almoços em família? Como fazer para cozinhar, se, afinal, eu não sei fazer nem chá! Ok, eu tenho alguma habilidade no miojo amanteigado e arroz com ovo porque foi o que comi nos períodos em que morava sozinha, quando não tinha grana pra pedir comida. Mas isso não entrava na dieta. Por sorte, a Graça, minha parceiraça aqui em casa, super me ajudou nessa.

     Aprendi que me programar era o segredo do sucesso. Estar com fome na rua às 16hs era a chance de fazer merda. Aprendi que teria que me afastar de programas que me expusessem a comida (tipo pizzada ou happy hour), pelo menos no começo. Que a energia para me manter abstêmia seria gigante e a chance de fazer besteira depois, enorme também. Percebi que muitas vezes não pensava, botava pra dentro. Rápida e ansiosamente. Enchia a cara literalmente. Mas percebi que às vezes também negociava com a comida: não vou comer isso, para comer aquilo depois. Que quando tinha contato visual ou olfativo com comida, tinha um impulso muito forte para devorá-la. Então passei a evitar olhar e cheirar. Parece ridículo? Funciona. Recebi um diagnóstico: compulsão alimentar. Muita gente vai embora nessa hora. Eu adoro dar nome as coisas. Se tenho um diagnóstico, quer dizer que tenho um tratamento e isso estranhamente me animou. Afinal, eu prefiro ser compulsiva alimentar do que gorda, bola, pepa pig e por aí vai.

     Percebi que eu tinha tanta compulsão alimentar que onde estava escrito lua de mel eu lia pão de mel. Que não pedia o café, pedia o canudinho de chocolate que vinha junto. Aprendi que dieta não tem feriado e é menos ruim do que parece, #cinturinhapáscoasemovo + #natalsemrabanada = #verãosemburca.

     As pessoas me falam: agora tá bom de emagrecer, né? Dá vontade de responder: querida, alguma vez eu disse pra você que tava bom de engordar? Não. Então cada um cuida do seu peso corpóreo, por favor.

     Emagrecer pode parecer apenas diminuir alguns números da calça, mas para mim foi começar um novo relacionamento com meu marido, me tornar uma mãe mais presente, me sentir capaz de me expressar através da escrita, perder o medo de ir em festas, reencontrar os amigos e, o mais importante, retomar o controle da minha própria vida.

 

TEXTO NOVO TODA QUARTA

biagarbato

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Depois de já ter feito de tudo um pouco, a caminho dos 40, um filho de 7, depois de perder 30kg e sair de uma depressão, me enchi de coragem e resolvi me dedicar ao que eu sempre amei que é escrever.