Vulnerabilidade, aqui vamos nós: é, cara, essas duas somos eu. Cheguei aos 100kg e voltei pra contar. Pouca gente me viu assim. Quase que nem eu mesma, já que eu fugia de reflexos em geral. E se hoje estou expondo essa minha cara de bolacha é para ajudar quem se identifique com minha história. Eu nunca havia me preocupado com meu peso. Era simplesmente magra, de uma família de magros. Eu já passava dos 25 anos quando comecei a tomar remédios para depressão. Fui sentindo mais fome, então fui ler os efeitos colaterais. Por que nunca são: alisa o cabelo, seca a barriga e dá tesão? Ao invés disso, tava lá: “queda de cabelo, aumento do apetite e diminuição da libido”. Mas eu precisava deles naquele momento. Com o tempo meu apetite começou a aumentar e fui perdendo totalmente o controle. Fiquei anos sem ter a menor ideia de como escapar dessa.

Vamos alinhar algumas coisas: tem gente que se sente bem – e fica bem – gordo, acho incrível, uma sorte. Eu, enquanto eu mesma, achava ser gorda um saco! Dormia mal, quando meu filho derrubava uma uva no chão preferia morrer a ter que pegar, parecia sempre que eu tava subindo as escadarias de Machu Pichu: ofegante e prestes a enfartar (eu sei bem, porque inclusive visitei Machu Pichu gorda!). A hora de me vestir era trágica. O guarda roupa foi ficando todo preto e largo, porque vivia escondendo partes do corpo que foram ficando esquisitas e nunca sabia se naquela semana estaria vestindo 44 ou 48. Passava a evitar ao máximo sair nas fotos, me escondendo atrás de crianças indefesas e cachorrinhos fofinhos. Subia na balança de costas para o médico anotar o peso: “e não ouse me contar que vai estragar minha semana!”. O Instagram passou a só ter fotos do meu filho ou paisagem de lugares lindos, para não acharem que eu tava tão miserável quanto de fato eu estava.

Concordo que têm várias coisas que podem colaborar para engordarmos: problema na tireoide, estresse, ansiedade, gravidez, problema hormonal, “não tenho tempo para me alimentar melhor”, “não sei cozinhar”; (eu não faço nem chá), remédios. Mas a real é que, em última instância, eu comia mais do que precisava. Geralmente bem mais do que precisava.

E se não conseguia comer o que precisava, então não tinha o controle sobre o que comia, certo? Nesse caso, lamentei me informar, mas era compulsiva alimentar. É muito difícil admitir que temos esse problema. Mas só a partir desse reconhecimento que consegui lutar contra ele. Quantas vezes me enganei jurando que comia pouquíssimo, detestava doce, me sentia injustiçada pelo mundo por estar engordando, o que só postergava e agravava o problema. Até comia salada e grelhado, mas tava mais para um pé de alface com um litro de azeite. O verdadeiro “olho gordo”.

Eu tinha a nítida sensação de que quando todos dormissem, meu marido fosse pro trabalho e meu filho pra escola, eu podia comer o que quisesse que não teria acontecido. É difícil a gente ter compulsão alimentar por repolho. A gente tem compulsão por todos os tipos de farinhas (menos a de linhaça), leites gordos e condensados misturados com chocolate em barra ou em pó. Pizzas inteiras, pastel e muitos sanduíches e milk shakes no Drive Thru. Eu não repetia. Tripetia. Tive a fase convicta: “eu faço esporte, minhas taxas estão boas, é uma questão de padrão de beleza”. Concordo que o padrão de beleza da moda é exageradamente magro. Mas não tinha a ver com isso, infelizmente. Tinha a ver com ter autonomia e controle da mente, que controla a boca, o corpo e a autoestima.

Foi muito tempo de sofrimento, de abuso de pessoas que achavam que me criticando, humilhando, apelidando, iam conseguir me fazer emagrecer (ei, você acha que com esse tamanho todo eu ainda não percebi que to fora do peso?); de muitas pessoas gentis me cedendo o lugar de gestante no supermercado, de muitas dietas com chia, sem glúten e água com limão para azedar o começo do dia; e muitos sapatos (sem cadarço para não ter que abaixar). Tem muita gente boa que tem raiva de gordo, que desmoraliza, que incomoda. Isso se chama gordofobia e deveria ser crime, porque é preconceito com portadores de compulsão alimentar e obesidade. Felizmente há cerca de um ano e meio me indicaram um clínica realmente séria, cuja proposta é tratar a cabeça com terapia em grupo, aliada a uma dieta simples, mas controlada nas gramas.

Eles me acolheram, mas acolher não quer dizer passar a mão na cabeça ou ser permissivo. Muito pelo contrário. É impor limites claros para quem deixou de conseguir estabelecê-los há muito tempo. Todas as desculpas são dadas para justificar comer: “adoro isso”, “hoje eu mereço”, “vamos comemorar”… E dá medo. Medão. Eu já indiquei a clínica para um monte de gente; algumas foram, nem todas persistiram. A compulsão é uma necessidade das entranhas do ser humano. Não do estômago. Do cérebro. E se privar dela é como ter a chupeta arrancada. A naninha doada pro irmão mais novo. Dói. Mas depois é imensamente libertador e o resultado não tem preço.

Hoje estou ma-gra. Já estive com 100kg, hoje peso 60kg de novo. Foram cerca de 10 anos entre começar a engordar, ficar realmente obesa e hoje. Sinto que voltei a viver, que resolvi um problema que tinha tomado minha vida de mim. Melhorou muita coisa: reaprendi finalmente a andar de bicicleta, minha saúde ficou zero bala, minha autoestima está insuportável: pulo na frente da foto e em seguida posto no Instagram. Tive que refazer meu guarda-roupa inteirinho. Fui do 48 pro 38. Conheci a inveja alheia. Lembrei que eu também sentia inveja de quem emagrecia. Fiz uma mala com as roupas grandes. Dizem que eu deveria jogar fora, mas ainda não quis. Se um dia engordo, ter que comprar tudo de novo seria insuportável. Mas não vou engordar se mantiver o tratamento para sempre. Sim, para sempre é assustador, mas é uma doença como a diabetes. Tomo os mesmos remédios engordativos que antes. A fome, a compulsão, segue igual ao dia um da dieta. Só porque eu sou magra e como quinoa em todas as refeições, não quer dizer que não penso em cobrir a quinoa com Nutella. O que mudou foi minha cabeça, a minha capacidade de controle. Minha vida toda teve que ser revista: meu relacionamento, minha vida profissional, a maternidade. Tudo estava distanciado de mim por um palmo de gordura. Por um véu de vitimização. No entanto, sei que o desafio maior vem agora, depois de ter perdido peso. Não esmorecer, seguir lutando, todo dia e para sempre. Porque a melhor coisa do mundo é estar no controle. E vestir M na Zara também não faz mal a ninguém.

TODA QUARTA UM TEXTO NOVO

biagarbato

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Depois de já ter feito de tudo um pouco, a caminho dos 40, um filho de 8, depois de perder 30kg e sair de uma depressão, me enchi de coragem e resolvi me dedicar ao que eu sempre amei que é escrever.