Costumamos pensar o espectro do autismo como uma régua que vai do “menos autista” para o “mais autista”, mas essa analogia não é muito fiel à realidade.

O TEA se parece mais com um buffet de características em que cada “cliente” se serve apenas de algumas, não de todas. Por isso é difícil encontrar dois “pratos” iguais.

E, por falar em buffet, a alimentação é um dos assuntos que mais costumam tirar o sono de pais em geral, que dirá então dos de crianças autistas. Quando estava grávida do Maneco, pedia a Deus que ele fosse saudável, que gostasse de comer e de dormir.

A cama, aliás, é outro potencial causador de pesadelos, mas por hoje vamos nos ater à mesa. Uma preocupação por vez, por favor!

São três as dificuldades mais frequentemente enfrentadas por autistas e suas famílias, cada qual com a sua causa mais comum: a possível compulsão por comida, as temidas restrições alimentares e a sombra ameaçadora das alergias.

Compulsão
Alguns indivíduos podem apresentar um apetite fenomenal por ansiedade, por não conseguir identificar a sensação de saciedade ou, ainda, como efeito colateral de uma das medicações mais prescritas para crianças no espectro, a risperidona, que trata justamente a ansiedade.

Parece paradoxal e é mesmo. Mas entre “comer demais” e ser compulsivo, existe uma fronteira muito sutil, à qual pais e terapeutas precisam estar atentos. Ter fome de leão é uma coisa, comer até sem querer é outra.

Seja a preferência da criança por um tipo específico de alimento ou por comida em geral, a primeira pode ser equacionada com exercícios e mudança de hábitos, enquanto a segunda requer tratamento mais profundo.

Restrições
Este é um tema clássico no TEA e você terá que peneirar muito para achar um autista que não tenha sérias restrições a determinados sabores, cheiros, cores e texturas. O culpado aqui – de novo! – é o TPS, o transtorno de processamento sensorial, praticamente o nosso mordomo.

Como falamos na semana passada, ninguém é totalmente hipo ou hipersensível; ela sempre combina as duas coisas em infinitas combinações. A mesma pessoa pode gostar de sabores fortes, crocância pronunciada, mas não comer um franguinho apimentado e empanado porque ele tem uma cor “esquisita”.

E existe ainda a rigidez de pensamento que pode levar à desconfiança em experimentar coisas novas. Meu filho, por exemplo, se deixar lambe móveis e brinquedos, mas é uma luta conseguir que ele efetivamente prove um alimento desconhecido.

Alergias
Nesta seara quem reina é a controvérsia. Embora a ciência se debruce sobre isso há um bom tempo, nunca restou comprovada nenhuma ligação estatística entre autismo e alergias. Assim, a prevalência de alérgicos a glúten ou ao leite entre autistas é a mesma que na população geral.

Apesar disso, há correntes de médicos, homeopatas e nutrólogos que garantem haver uma estreita relação entre autismo e inflamações intestinais que seriam fruto de alergias alimentares não detectadas pelos testes hoje disponíveis.

Na ânsia de “atenuar” o autismo, muitos pais submetem os filhos a dietas restritivas e às vezes relatam mesmo uma melhora substancial. É questão de foro íntimo, uma vez que a ciência não é infalível nem imutável, mas eu particularmente acredito que ainda é a régua mais acurada que o ser humano já produziu.

 

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.