Às vezes não tem graça nenhuma ser quem a gente é. Tem gente que parece ser imune a depressão. Eu infelizmente não sou. Aliás, a depressão dorme do meu lado direito todas as noites (do esquerdo é meu marido). De manhã eu dou um bom dia bem animado para ela, coloco uma roupa de ginástica toda combinando (roupa combinando irrita muito a depressão) e vou suar a camisa (ela não suporta camisa suada). Hoje em dia ela até pode me pegar, mas não é fácil, resisto até o fim. Conheço bem a danada.

No começo, me tomava de assalto. Nocaute, para cama. Hoje não. Eu dou uma boa briga. Vou lidando com ela, sei que vai passar, me trato, saio de casa mesmo sem querer, desenho, canto, escrevo. E quando vejo, ela saiu fora. Aí finjo que ela não existe, dou um gelo. Mas só finjo, porque sei que tenho trabalho para mantê-la longe de mim.

Mas mesmo assim, de repente, a vida parece uma coisa gigante. São tantos pratos a girar, que vou ficando exausta. Aí do nada, os pratos caem. Vem a vontade de se esconder, de sumir dentro do colchão (não basta ser em cima). Vem um constrangimento enorme por ser uma farsa: uma pessoa que finge viver. E me arrasto por aí com meu traje invisível de pedra. Até que um dia, abro o olho e ela se foi. Abro a janela e o sol brilha, não me ofusca mais. A vida tem graça, tem gosto, tem cor. E aquele sofrimento, não faz mais sentido. É quando eu sei que tenho que aproveitar ao máximo, ver os amigos, dançar, trabalhar, amar. Pois nunca sei quando ela me fará outra visita.

TEXTO NOVO TODA QUARTA

biagarbato

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Depois de já ter feito de tudo um pouco, a caminho dos 40, um filho de 7, depois de perder 30kg e sair de uma depressão, me enchi de coragem e resolvi me dedicar ao que eu sempre amei que é escrever.