Em apenas dez ou quinze dias, nosso isolamento social se intensificou e a sensação é que o mundo como o conhecíamos ficou perdido em um lugar remoto de um passado distante.

Para tantos de nós, o abandono daquele cotidiano a que estávamos acostumados vem causando muita angústia e algumas pessoas estão experimentando sintomas de depressão.

Esse mal-estar emocional difuso, embora difícil de enfrentar, pode ser uma boa analogia para os neurotípicos entenderem, e frequentemente sentirem na pele, o que passam os autistas quando têm sua rotina quebrada repentinamente.

O insight poderoso não é meu, mas da Carol Souza, autista adulta do interior de São Paulo, que tem a página Autistando, onde descreve com muita precisão seu ponto de vista – recomendo vivamente que sigam!

Limão em limonada
Já que a rotina foi inexoravelmente quebrada, o jeito é estabelecer uma nova colocando-se no lugar do outro e procurando enxergar o mundo através dos olhos dele. A tal da empatia, sabe? Sentar com seu filho e deixá-lo guiar a brincadeira, sem pressa.

O maior investimento que se pode fazer, neste caso, é em diversão. É preciso aguçar o olhar pela casa para pensar em materiais disponíveis, puxar pela lembrança coisas da nossa infância e, principalmente, envolver-se e por as mãos na massa!

Confesso que, para mim, essa tem sido a grande reflexão imposta por esses tempos. Eu vinha sendo uma mãe em piloto automático, mais focada nos afazeres e horários, e terceirizando a parte lúdica à escola, ao terapeuta, ao professor de natação.

Acontece que no fim das contas, é nesse contato que as crianças, dentro e fora do espectro, aprendem, e o meu aprendizado agora é este: renascer outra mãe para ajudá-los a criar boas memórias e, se tudo der certo, fazer parte delas.

Joana Santana

Curiosa de nascença, obedeço aos chamados da vida. Por amor e vocação, virei jornalista, esposa e mãe. Meu mundo só fica maior.