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Elias Gomes

Em época de nervosismo e polarização, palestrantes defendem a crescente necessidade da bioética

Imagine a seguinte situação. Há apenas uma vaga na UTI de determinado hospital, mas existem dois pacientes com o mesmo quadro clínico que precisam passar por um procedimento. Um deles é um garoto de 20 anos; o outro, um idoso de 80. Quem você salvaria? Provavelmente respondeu o jovem, certo? Então vamos mudar um pouco a situação. Desta vez, um dos pacientes é um rapaz de 20 anos que saiu de uma casa noturna sob efeito de drogas; a outra, uma mulher de 40 anos que possui duas filhas pequenas. E agora, sua resposta mudou?

Foi com essa provocação que Vera Lucia Zaher-Rutherford (médica pesquisadora do LIM do Hospital das Clínicas FMUSP) apresentou o quarto e último painel do fórum Mitos e Fatos: Saúde, cujo tema foi a bioética. Participaram da discussão também Rafael Laurino (diretor associado de pesquisa clínica Bristol-Myers Squibb Brasil), Mayana Zatz (diretora do Centro de Pesquisas em Genoma e Células-Tronco), Jorge Venâncio (coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa CONEP) e Bráulio Luna Filho (diretor primeiro-secretário do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo CREMESP).

A mediadora da conversa foi a jornalista da Jovem Pan Carolina Ercolim. Logo no início, ela questionou os convidados sobre um dos assuntos relacionados à bioética que mais tem sido falado nos últimos anos no país: a legalidade (ou não) do Estado em interferir na prática do aborto. E Laurino foi direto. “Tudo é política. A sociedade não evolui sem debate. O que não podemos ter é esse ‘debate’ que tem hoje. Não podemos ter um setor da sociedade influenciando o parlamento e não ouvindo a real necessidade das pessoas. No Congresso, não discutem bioética. Eles vão para o caminho de religião, não fundamentado na ciência, o que me parece perigoso”, disse.

Bráulio e Zatz seguiram linhas semelhantes ao colega. “O aborto é um direito da mulher que o Estado tem que garantir. É lamentável que o Congresso não represente a ciência médica”, afirmou ele. “No caso de bebês com microcefalia, por exemplo, a maioria dos pais abandona a criança por ela ter nascido com problemas de visão, audição, convulsões. É crime não dar essa decisão à mãe”, completou ela.

Outro assunto relacionado ao tema debatido na mesa foi o das pesquisas médicas. Laurino criticou a demora no processo de elaboração e desenvolvimento em pesquisas desde o início, quando é feito o recrutamento de pacientes interessados. “Ética não é sinônimo de lentidão, mas de eficiência. Não quero dizer que temos que ter menos rigor em casos delicados, muito pelo contrário. Mas temos que aprovar pesquisas de forma ética com rapidez”, argumentou.

Venâncio contou que essa é uma das frentes de sua atuação. “Assumimos o CONEP em situação difícil. Antes eram 10 meses por análise, hoje damos 25 dias. A questão entre nós está estabilizada e resolvida. Temos agora outros problemas em outras instâncias”, disse.

Seja em relação ao primeiro ou ao segundo tema, Vera Lucia cravou a conclusão: nosso maior problema é não reservar um bom tempo para essas e outras discussões. “A grande questão da sociedade é conviver com diferenças. Esses assuntos são complexos, temos que levar em consideração todos os lados. O que falta nessa corrida é prudência. Nós nos precipitamos. Precisamos sentar, conversar, expor, argumentar. Para depois ter jurisprudência. Isso é avanço da sociedade. A bioética não tem uma, tem várias. Precisamos tomar cuidado. Temos que nos debruçar nas questões”.