Pular para o conteúdo

Morrem ao lado

Morrem ao lado

Já se sabe do retorno do Campeonato Carioca nesta quinta-feira (18). Se sabe também que a Olimpíada (2020) foi cancelada e seus organizadores japoneses tampouco encontraram uma nova data para a realização do evento. Mais que isso, sabe-se que a UEFA anunciou que os jogos de oitavas de final da Champions League serão disputados em um único país, no caso Portugal, que ao lado da Alemanha melhor controlou e evitou a proliferação da Covid-19 em seus territórios.

Estes últimos dois, Portugal e Alemanha, foram na contramão do que fez a Itália, por exemplo. Por lá, a depender do prefeito de Milão, as lojas das grandes grifes continuariam abertas, mesmo com gente a se apinhar nos corredores dos hospitais e morrendo aos milhares em suas casas. É verdade que, também na Itália, o futebol já retornou. Não se pode esquecer, porém, que os treinos só começaram quando menos de cem pessoas morriam por dia, depois de estabilizada a curva.

No Brasil, não. Pergunto onde estão os que até ontem clamavam o fim do estadual carioca até outro dia. O Flamengo mesmo, lembram-se? E aqui não tenho a menor pretensão de quaisquer tipo de proselitismo. Os argumentos caem por terra. O clube carioca continua sem contrato por seus direitos de imagem e já avisou que não fechará acordo com a TV Globo. Também o Maracanã não receberá público, significando por óbvio que não haverá receita para os cofres do clube. Bem, mas sobre Maracanã, chegarei em breve.

A sanha inexplicável pelo retorno é tamanha que permitiu inclusive alterações grotescas nas regras, como a liberação pela FERJ para os clubes pudessem inscrever até 12 jogadores amadores. Ora, em sua maioria, amadores sempre foram os dirigentes! No andar da carruagem, não se espante que para legitimar a bola rolando apareça alguém esbravejando que o futebol não é esporte de contato.

Confirma-se a volta do horripilante Carioca no auge do novo coronavírus no estado. A surreal realidade brasileira solapa e supera os livros de Kurt Vonnegut, de longe. É assim mesmo. Na última segunda-feira (16), o repórter Rafael Galdo, do jornal O Globo, informou que no Rio as mortes estão sendo contabilizadas com um mês e meio de atraso. É a cortina de fumaça perfeita, contando com a ‘mãozinha’ do prefeito Marcelo Crivella que resolveu driblar os números e, até agora, não se sabe com exatidão quantos foram vitimados oficialmente.

Inconteste, não sou contra o retorno aos treinos, desde que respeitados os limites estabelecidos pela vigilância sanitária de cada cidade. Sou contra, sim, o retorno do futebol no Rio de Janeiro, postos todos os problemas que já conhecemos.

E como pode se autorizar que se jogue futebol a poucos metros de distância de hospital de campanha? O próprio prefeito afirmou que os “os jogadores, vão entrar por um portão que não tem ligação com o hospital de campanha”. É no mínimo um enorme descolamento da realidade. E digo mais: é questão humanitária e de respeito.

Nota assinada por jogadores do Fluminense contesta o que autoridades se negam a admitir: é contrassenso voltar o futebol no Rio.

Enquanto a carreata passa, com os políticos jogando seus mortos por cima das caçambas, o povo poderá se distrair com futebol. Pelo menos isso, não? Na verdade, menos os torcedores rubro-negros, estes, que foram representados intrepidamente por seus dirigentes, não tem acordo com televisão alguma. Até quando vai durar a festa?

Fecho indagando o seguinte: A CBF, que lucrou 957 milhões de reais em 2019, segundo dados oficiais, não poderia interferir e ajudar financeiramente os milhares de atletas que realmente necessitam? Afinal, apenas os clubes de elite podem voltar a jogar neste primeiro momento. E os outros? Em meio a tantos absurdos, é minha pergunta inocente, quase ingênua.

Felizes foram os jogadores do Fluminense, humanistas, preferiram respeitar vidas e anunciaram o óbvio: contrassenso. Tudo tem sua hora. O futebol tem que esperar. Nunca uma vida valeu mais que um gol.