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Ao abordar censura cultural, obra inédita de Dostoievski no Brasil tem paralelo com atual momento da política

Ao abordar censura cultural, obra inédita de Dostoievski no Brasil tem paralelo com atual momento da política
Gabriel Dias e Paulo Bezerra (Rio de Janeiro. Foto: Luan Henrique)

 Gabriel Dias

Com ‘Escritos da Casa Morta’ Paulo Bezerra encerra ciclo de traduções da obra do russo Dostoiévski após duas décadas imersas no escritor. A tradução direta do russo é inédita e será publicada pela Editora 34, ainda neste semestre.

Aos 80 anos, o professor e tradutor brasileiro Paulo Bezerra já traduziu para o Brasil os grandes romances do escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821 – 1881). Obras de fôlego como ‘Crime e Castigo’, ‘Os Demônios’, ‘Os Irmãos Karamazov’ e ‘O Idiota’ chegaram ao país através das palavras de Bezerra.

O ciclo encerra-se com o término da última tradução que chegará aos leitores em breve: ‘Escritos da Casa Morta’, será lançado ainda este ano pela Editora 34. Há no mercado brasileiro outras edições com títulos variados, como: ‘Memória da Casa dos Mortos’ ou ‘Recordações da Casa dos Mortos’. No entanto, são traduções indiretas – quando feitas não são feitas a partir da língua original, mas de uma retradução. Sobre a última tradução, dispara: ‘Onde uns sucumbem, o gênio revive. Aquelas vivências marcaram Dostoiévski por toda uma vida’.

O paralelo com o Brasil pode ser entendido pelo sistema prisional, segundo explica Paulo Bezerra, sobressaltando-se que o livro é publicado originalmente em 1861, e os fatos permanecem igual: ‘nós vivemos numa época em que os valores humanos estão sendo relegados à centésima categoria, um desprezo total. O Brasil vive esse grande monturo, com indivíduos sem nenhuma qualidade intelectual nem humana assumindo cargos públicos de alta relevância. E o sistema prisional brasileiro continua o mesmo, enchendo cada vez mais de prisioneiros, milhares sem culpa formal e a justiça não funciona e quando funciona é com preguiça. E quanto mais pessoas entram, mais alimento tem o crime organizado, que controla as prisões. E isso já está previsto nos Escritos da Casa Morta, Dostoiévski mostra isso, o sistema.’.

Mesmo que não haja mortos na casa, ao contrário, há muitos prisioneiros inteligentes, tirando um ou outro palerma, o nome ‘Casa Morta’ alude justamente ao ‘sistema morto, a verdadeira grande condenação da casa’ que não ressocializa e nem recupera ninguém, como explica o tradutor.

Estante Jovem Pan entrevista Paulo Bezerra; ouça.

Morto quarenta anos antes da Revolução Russa (1917), não assistiu à queda da autocracia dos Románov após três séculos no comando (1613 – 1918), tampouco a promessa de Nicolau I (1796 – 1855), de extirpar a condição de servidão do campesinato, concretizou-se em sua totalidade. A Rússia de Dostoiévski é a mesma de seus romances: das mazelas sociais que afligiam o povo, dos apartamentos de aluguel que se avolumavam por Moscou, dos agiotas às usurárias. A emancipação dos camponeses norteava o debate entre os intelectuais da Rússia desde de 1840 – reuniões de leituras que formaram os famosos ‘círculos literários’, para leituras compartilhadas de poesias e romances entre os escritores.

O Círculo de Petrachevski é o divisor de águas na vida do futuro romancista de ‘Os Irmãos Karamazov’, pois aos poucos os debates sobre literatura migram para discussões políticas e sociais, debatendo às escondidas do czar acerca de três pontos específicos: abolição à censura, construção de um sistema de justiça e emancipação dos servos. Paulo Bezerra explica que Dostoiévski ‘é preso porque leu uma carta de Belínski a Gógol’, o manuscrito de Belínski era uma energia denúncia da servidão. Houvera um agente policial – nunca identificado – infiltrado nas frequentes reuniões do grupo.

Meses depois, Dostóievski seria acusado e condenado à morte por fuzilamento, a causa seria uma prensa litográfica – espécie de máquina impressora caseira da época – usada para escrever manifestos contrários ao governo. Esse episódio marcou o emocional do escritor, pois quando todos preparavam-se na frente do batalhão de fuzilamento ocorreu ‘aquela cena teatral montada para simular o fuzilamento dos presos, depois surgiu a figura do imperador Nicolau I para absolver os acusados’, era uma ação planejada, de forma que o imperador se passasse por um ser benevolente.

Em substituição à pena de fuzilamento, Dostoiévski é condenado a cumprir oito anos de trabalhos forçados, período que posteriormente seria reduzido para quatro. O escritor passaria pelos presídios de Omsk e Semipalatinsk. (Rio de Janeiro. Foto: Luan Henrique).

Frágil de saúde, era visita quase constante no hospital da prisão e em tantas idas e vindas acabou conhecendo o médico chefe do local, que já o admirava por seus livros anteriores, um dos quais lhe deu reconhecimento como expoente de sua geração: ‘Gente Pobre’, romance epistolar que em pano de fundo trata da exclusão social do sistema russo da época. O único livro permitido no presídio de Omsk, na Sibéria, era a bíblia e só graças ao médico o escritor pôde fazer anotações e notas clandestinamente, que eram guardadas pelo enfermeiro do local e formaram os famosos cadernos siberianos, de onde o escritor pôde reconstruir a história de sua passagem pelo cárcere.

O professor explica que o livro não retrata memórias ou lembranças escritas após os acontecimentos – como os demais títulos dão a entender. Tudo é anotado no calor dos fatos, tornando-se ‘uma narrativa baseada em observações no cotidiano da prisão, feitas por Dostoiévski na presença dos acontecimentos’, e é neste ponto a diferença de título para as outras.

No livro é possível identificar as várias categorias de presos: os intelectuais, os prisioneiros comuns, os presos políticos. O livro é o espelho da sociedade do momento, compreende-se inteiramente a forma como os camponeses enxergavam os presos políticos, como Dostoiévski: ‘Queriam fazer uma revolução camponesa [libertação dos servos] sem entender os camponeses, que também não os entendia. Que os detestavam porque não conseguiam se despir da roupagem de nobres, não conseguiam conviver naturalmente com os prisioneiros comuns’. O narrador do livro sobre para se entender com o grosso dos prisioneiros: ‘O povo sempre teve aversão aos nobres’, tema que é perene em ‘Memória da Casa Morta’.

A imersão na tradução é muito maior que apenas um debruçar-se nos sistemas linguísticos de tradução da língua, o que transforma o trabalho em algo ainda mais complexo, existindo a necessidade de transportar a linguagem da ficção russa para o português, porque ‘os personagens parecem brotar do chão bruto, cada um fala a seu modo, como costuma falar’, e essa é uma das maiores dificuldades em Dostoiévski, pois ‘você não trabalha com linguagem, mas com linguagens, cada personagem é uma linguagem’, ou seja: são pessoas que existiam na realidade do cotidiano de seus mundos e transformaram-se em personagens literários.

Após vinte anos de ‘convivência’ com o escritor russo, Paulo Bezerra ri quando indagado sobre as aprendizagens que adquiriu trabalhando quase que diariamente com os escritos do russo: ‘Aprendi que a gente sabe cada vez menos o que precisaria saber e o que a gente aprende nunca é necessário para nossas próprias necessidades. Traduzir um gênio é uma aprendizagem muito difícil, porque errar contra um simples mortal é uma coisa, errar contra um gênio é um problema sério’ e encerra: ‘A responsabilidade de traduzir um gênio é muito maior.’.

Um dos trechos mais belos para o tradutor é justamente a descrição de abertura do romance, uma passagem sobre a cidade de Semipalatinsk, onde Dostoiévski concluiu seu período de prisão na Sibéria: ‘Nos longínquos rincões da Sibéria, entre estepes, montanhas ou bosques intransitáveis, aparecem de raro em raro cidadezinhas com mil habitantes, muitas com dois mil, todas de madeira desgraciosas, com duas igrejas. Uma no centro, outra no cemitério, cidadezinhas mais parecidas com um bom povoado nos arredores de Moscou do que com uma cidade. Elas costumam ser bastante bem providas de comissários de polícia, assessores e todos os demais subalternos. De um modo geral, o serviço publico na Sibéria é cheio de calor, apesar do frio. As pessoas são simples, conservadores, de hábitos antigos, arraigados, consagrados por séculos, os funcionários públicos, que com justiça desempenham o papel de nobreza siberiana são nativos, siberianos da gema ou originários da Rússia, vindos em sua maioria das capitais e atraídos pelos adicionais aos vencimentos, pelas ajudas de custo em dobro nos deslocamentos e pelas tentadoras esperas de futuro.’.

Resta para imaginar o que fariam os brasileiros que não tiveram a oportunidade de ler as traduções de Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra dos clássicos russos direto da língua original.