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Naturalização da ignorância

Naturalização da ignorância

É cada vez mais absurdo o que tem acontecido dentro do estádios de futebol. Ainda hoje, as redes sociais efervescentes compartilham imagens e vídeos de atos da torcida do Palmeiras contra torcedores do mesmo time. É inadmissível e condenável que insatisfações com o clube dentro de campo se transformem em atos extremos de agressões, inflamados por discursos de ódio que não se justificam. Foram agredidos verbalmente e expulsos do estádio um senhor de 67 anos – que protestava com um livro na mão – e dois rapazes – ambos palmeirenses – membros de um projeto que auxilia na formação e desenvolvimento de novos atletas, no interior de São Paulo. Um deles é Diego de Jesus, que jogou pelo Belenense de Portugal, Potiguar e Flamengo do Piauí.

Estes torcedores, que expulsaram e agrediram verbalmente estas pessoas não estão capacitadas a viver em sociedade e aceitar contrários ou diferentes. São tolos, toscos e vassalos que apoiam seus discursos em uma veia moralista que não se sustenta – são eles mesmos, hipócritas. Não compreenderam, ainda, o significado da palavra ‘democracia’. São todos uns brutamontes desequilibrados, que devem pensar que democracia significa satanizar e perseguir quem não segue suas cartilhas de como se comportar em um estádio de futebol.

As acusações são banais e de uma ignorância infinita. No Allianz, dois torcedores foram sumariamente expulsos das arquibancadas porque não vestiam a camisa do Palmeiras e nem cantavam como os demais, como se houvesse regra explícita ou implícita de como se deve agir em um estádio de futebol. A única regra que existe para gente ignorante é que todos devem seguir suas cartilhas indigentes. Por obra da força, querem inverter os valores morais de uma sociedade, assim, tentam tornar-se dominantes.

Estes, que aí estão apoiados nos discursos moralistas, acreditam que é bom apenas o que é útil para si próprios, já dizia Nietzsche, em sua genealogia da moral.

E, por incrível que pareça, até o momento em que escrevo este texto, nesta terça-feira(03) às 12h03, o Palmeiras não se pronunciou oficialmente sobre os ocorridos. Ou seja, não há outra interpretação que não seja esta: o time é leniente com os vândalos.

[ATUALIZAÇÃO, O Palmeiras emitiu a seguinte nota, dois dias depois do ocorrido:

Estádio de futebol é, essencialmente, um espaço democrático, um lugar onde todos deveriam ser bem-vindos independentemente da camisa que vestem ou da forma como torcem e se expressam. A Sociedade Esportiva Palmeiras não compactua e não aceita quaisquer atos de intimidação, intolerância e discriminação em nossa casa. Os episódios do último domingo (02), em que espectadores foram coagidos a deixar o Allianz Parque por não seguirem um padrão de comportamento imposto de maneira autoritária, não refletem a história agregadora da nossa instituição.

Assim que tomamos conhecimento dos fatos, abrimos investigação para identificar os autores desses lamentáveis casos de violência que em nada contribuem para o bom convívio em sociedade. Se os responsáveis constarem do quadro de sócios Avanti do Palmeiras, serão sumariamente excluídos do programa. O respeito ao próximo é o mínimo que se espera em qualquer ambiente, ainda mais em uma praça esportiva.]

Tornamos o Brasil um país de extremistas de todos os lados, com discursos apoiados no ódio, que sempre esteve enraizado em nossa sociedade. Não, aqui, os extremos não se tocam.

Não bastasse isso, é ainda mais patético que o presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, peça, com voz quase afônica e muda, que tampouco transmite qualquer confiança sobre um futuro a curto prazo, que para jogar no Palmeiras os jogadores devem ter raça e espirito de luta. Não me parece que este presidente tenha no sangue, o que pede para seus jogadores.