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OPINIÃO | Como os Romances serão filmados em tempos de pós-pandemia?

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OPINIÃO | Como os Romances serão filmados em tempos de pós-pandemia?
Como serão as cenas de beijo em um futuro próximo?

Estúdios, autoridades sanitárias e entidades profissionais discutem quando e, principalmente, como voltar ao trabalho. Mas, se usar máscaras é uma decisão simples, atuar quando a saúde depende da distância força a indústria a repensar o trabalho. 

Responsável por contribuir com cem bilhões de dólares para o PIB dos EUA e geradora de mais de trezentos mil empregos (dados de 2018), a indústria de cinema e TV não vê a hora de voltar ao trabalho. O sentimento é compartilhado por governos de todos os continentes, ansiosos para mostrar que as aves que lá gorjeiam valem a viagem de uma equipe de filmagem e dos turistas atraídos pelos filmes e séries. O problema é que ainda não existe uma vacina para o coronavírus.

Em meio ao risco, estúdios, governos e entidades representativas dos profissionais envolvidos em filmagens começam a determinar as regras que vão permitir a volta ao trabalho. Por definição, um set é um local de trabalho coletivo. Seja qual for o produto final, onde há atores, há uma multidão trabalhando para colocar em pé o que o público vê na tela. Estudos mostram que um único portador do novo coronavírus pode infectar seis pessoas. Em outras palavras, um set é um potencial foco de epidemia.

Na corrida para ser o primeiro a oferecer uma opção segura, Islândia, Austrália, Portugal, República Tcheca, Índia, Polônia e Espanha são alguns dos países que já estabeleceram regulamentos para as filmagens. Estes, por sua vez, têm de ser combinados com as restrições de viagens que estão em vigor, com vários países europeus fechados para viajantes de fora do bloco. As regras, podem ainda variar de região para região. A Espanha já liberou filmagens em locais com baixos números de casos da Covid-19, como as Ilhas Canárias, mas não em Barcelona, onde os números são mais altos. Ao contrário disso, a França liberou filmagens em Paris, que segue em alerta.

Nos Estados Unidos, a discussão uniu entidades como a Motion Picture of America (representante dos estúdios), Directors Guild of America (sindicato dos diretores), SAG -AFTRA (sindicato dos atores), bem como os sindicatos das demais categorias envolvidas no trabalho e autoridades. Para começar, estão abolidas as visitas aos sets, onde somente os profissionais necessários deverão estar de hoje em diante. Na Grã-Bretanha, onde The Witcher (2019) e The Batman (2021) então entre as produções que tiveram as filmagens interrompidas, os protocolos foram firmados pela British Film Commission com a participação do Bectu – Broadcasting, Entertainment, Communications and Theatre Union (sindicato dos trabalhadores em transmissão, entretenimento, comunicações e teatro), BAFTA, Disney, HBO e Netflix.

Em todas as listas e discussões, os termos comuns são as medidas de higiene, uso obrigatório de máscaras – não importando se o profissional acha que isso ofende seus direitos constitucionais – e luvas, a proibição de compartilhamento de objetos e equipamentos e o controle de presença, além do uso constante de termômetros sem contato e a definição de um responsável sanitário que responderá pela aplicação das regras no set. A tendência é a substituição de locações externas, como ruas e praças, por trabalho em estúdios, onde o controle do ambiente é mais completo. Na República Tcheca, onde a segunda temporada de Carnival Row (2019) teve a produção interrompida, bem como nos demais países que já anunciaram suas regras, as exigências incluem testes obrigatórios para toda a equipe e isolamento da filmagem.

Amor à Distância

Outra regra comum a todos os protocolos já divulgados é a distância mínima de dois metros entre as pessoas. O que coloca uma questão importante: como filmar diálogos ou cenas românticas sem proximidade?

A opção mais simples é testar os atores antecipadamente, o que vários dos protocolos já divulgados estabelece, e concentrar todas as cenas de proximidade no mesmo dia, o que é impossível para a maior parte dos roteiros. Uma alternativa é a filmagem em separado, método que já foi colocado em prática em Marry Me, filme estrelado por Jennifer Lopez e Maluma, com os atores filmados cada um em sua própria casa. Dificilmente o que se poderia chamar de romântico.

Na Austrália, a novela Neighbours (1985) voltou ao trabalho usando ângulos de câmera que fazem com que os atores pareçam estar mais próximos, truque usado em O Senhor dos Anéis (2001) para simular a diferença de altura entre humanos, anões e hobbits. O método funciona para diálogos e boa parte das cenas de proximidade, mas, definitivamente, não é eficiente para o romance.

Uma terceira opção é o uso de efeitos digitais. Forest Gump (1994) provou ser possível mesclar imagens distintas, inserindo Tom Hanks em cenas históricas, técnica reprisada no episódio Trials and Tribble-ations de Star Trek: Deep Space Nine (1993), quando os atores do seriado dos anos 1990 “contracenaram” com o elenco de Star Trek (1966). Mais uma vez, a técnica permite simular algumas interações entre os atores, mas, não as cenas de romance e sexo que o cinema e a TV tornaram comuns nas últimas décadas.

Na Alemanha, o regulamento escolhido determina que todos no set devem ser testados regularmente. Além disso, se uma cena exige que os atores trabalhem a menos de 1,5m de distância uns dos outros, todos devem entrar em quarentena após a filmagem. Além do distanciamento da família, a opção inclui compensação financeira aos atores pelo tempo de quarentena, elevando os custos de produção. O processo também exige o registro de todos os contatos dentro da filmagem, permitindo que, caso alguém fique doente, seja possível rastrear todas as pessoas que podem estar contaminadas. Estão, assim, extintos quaisquer interações não declaradas entre profissionais dentro da produção.

Seja qual for o método, uma variável segue indefinida: quais atores aceitarão voltar ao trabalho? Em entrevista à Vanity Fair, Charlize Theron disse que não pretende voltar a atuar tão cedo, por medo de levar a Covid-19 para os filhos pequenos. Outros atores de alto calibre, e condições financeiras para tanto, podem tomar a mesma decisão. Em tempos em que o risco sai dos dublês e vai parar na cama, no sofá ou mesmo em uma cena simples ambientada em uma sala ou cozinha, as seguradoras também não oferecem cobertura contra a Covid-19 caso uma filmagem tenha de ser interrompida. Sem uma opção segura, a indústria pode voltar aos tempos em que a câmera se afastava, e o que acontecia entre um casal dependia da imaginação de cada um.