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CRÍTICA | O Escândalo – Os bastidores do conservadorismo americano

Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie em O Escândalo
CRÍTICA | O Escândalo – Os bastidores do conservadorismo americano

Expondo mundo a fora os bastidores de uma das mídias mais conservadoras dos EUA, O Escândalo chega aos cinemas brasileiros em 30 de janeiro.

Estrelado pelo trio Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, O Escândalo mostra a queda de um dos maiores executivos da televisão americana, acusado de assédio sexual por diversas mulheres de sua emissora.

Roger Ailes (John Lithgow) foi responsável por chefiar o grupo FOX e fundador da FOX News, um dos maiores canais de jornalismo 24 horas dos EUA. Ele chegou a ser consultor de mídia dos ex-presidentes republicanos Ronald Reagan, Richard Nixon e George W. Bush, além de contribuir com a campanha de Donald Trump.

Em 2016, Gretchen Carlson (interpretada por Kidman), ex-âncora do canal conservador, o processou por assédio sexual após ter sido demitida por recusar suas investidas. Com a denúncia, outras funcionárias também acusaram o executivo de crimes sexuais, entre elas, a polêmica jornalista Megyn Kelly (Theron).

As delações vieram a tona um ano antes do escândalo com Harvey Weinstein ter explodido na indústria cinematográfica, e do movimento #MeToo ter sido criado.

O drama dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, trabalha com três pontos de vista, o de Carlson, Kelly e da fictícia Kayla (Robbie), uma novata da FOX que representa as demais vítimas de Ailes.

É possível ver referências do antigo trabalho de Randolph, A Grande Aposta, em termos de recursos narrativos como personagens que falam diretamente com o espectador, o pensamento Vs ação, e uma sequência explicando como a Fox News funciona e o que ela representa.

A queda da quarta parede é interessante, principalmente para se discutir como a mulher precisa pensar duas vezes antes de agir ou falar, para não ser interpretada ou julgada de maneira equivocada. Mas a tentativa de montagem frenética funcionaram bem melhor nas obras de Adam McKay.

O roteiro tenta criar diversas ligações como o fato de que por trás da promoção do conservadorismo americano, da moral e dos bons costumes e de defesa ao Trump, existe um veículo midiático sujo e sem escrúpulos.

Mas, infelizmente, fazem isso de uma maneira lenta, parece que demora para chegar no ápice. Provavelmente é porque os acontecimentos ainda estão frescos e não se tem uma visão completa e geral da coisa para poder decupar os fatos e desenvolver a história de maneira mais concisa.

E ele não foi polêmico apenas dentro das telas, mas também por trás das câmeras. O longa foi criticado por conta do lugar de fala, já que o tema é assédio contra mulheres, mas foi dirigido e escrito por homens.

Outro ponto discutível foi o fato de darem nomes a quase todos que aparecem ali. Para os americanos, isso faz muito mais sentido, já que estão familiarizados com essas figuras, e provavelmente receberam essa informação como uma maneira de se situar e até de expor aqueles que foram coniventes com as atitudes do CEO. Mas para o público internacional, isso não tem muita importância e necessidade.

Sobre o espaço de tela, Kidman fica pra trás, como se sua personagem tivesse apenas a missão de conduzir as coisas para onde devem ir. O destaque, com certeza, fica com Theron, que literalmente se transformou para viver o papel (a semelhança é impressionante!), e Robbie, que protagoniza a cena mais impactante do longa ao lado de Lithgow. Ele faz um ótimo trabalho em deixar todos incomodados com suas repugnantes atitudes.

Aliás, essa deve ser a produção que mais contratou mulheres loiras em Hollywood… Além da tríade principal, também estão no elenco Kate McKinnon, Jennifer Morrison, Connie Britton, Tricia Helfer, Liv Hewson, Alice Eve, Elisabeth Röhm e trocentas outras atrizes com madeixas platinadas.

Também vale dizer o quanto é irônico ver Malcolm McDowell, o Alex DeLarge de Laranja Mecânica, interpretando Rupert Murdoch, o manda chuva das principais mídias conservadoras dos EUA, entre elas a própria FOX, o The Wall Street Journal e o The New York Post.

De qualquer modo, O Escândalo é extremamente necessário, provavelmente será o primeiro de muitos sobre a temática, e estreia dia 30 de janeiro.