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CRÍTICA | Eu Nunca… – Relaxa Mindy Kaling, a gente amou sua protagonista indiana!

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CRÍTICA | Eu Nunca… – Relaxa Mindy Kaling, a gente amou sua protagonista indiana!
Tá tudo bem Mindy Kaling...Tá tudo bem!

Eu Nunca… chegou na Netflix com humor ácido e com uma arma apontada na cara dos antissemitas de plantão

Criada por Mindy Kaling (The Office), na Califórnia, 2020, conhecemos Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan), uma jovem de 15 anos que está no 2º ano do colegial. Ela está, definitivamente, decidida a transar. O alvo? Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnet) um jovem do terceiro ano que reprovou na aula de história e terá algumas horas na mesma sala de Devi. Mas o foco de Eu Nunca… não é de vermos Devi perder o cabaço, e sim de entrarmos em seu mundo pessoal recheado de várias etnias e muita diversidade para fazer o espectador se sentir culpado.

O sonho de ser popular, custe o que custar

A jovem, que tem Ben Gross (Jaren Lewison) como arqui-inimigo, descobre que faz parte do grupo de “meninas não interessantes” do colégio, mas ela acredita que consegue sim conquistar o cara mais cobiçado. Com a ajuda de Eleanor Wong (Ramona Young) e Fabiola Torres (Lee Rodriguez), Devi se mete numa mega mentira envolvendo Paxton e consegue entrar numa jornada rumo a ser super popular na escola.

Enquanto lida com as questões adolescentes padrão, a série enche linguiça com argumentos rasos e uma chuva de “veja como somos super inclusivos”.

Homem branco

Para começar, Devi é indiana, tem um pai falecido, uma mãe controladora e uma prima também indiana. Entre suas melhores amigas, uma é asiática e a outra afrodescendente. O alvo amoroso é mestiço e tem uma irmã com síndrome de down. Seu arqui-inimigo é judeu e, para completar, o professor de história é o cara branco complicado. Ácido e um tanto quanto sem noção, ele usa de um trabalho sobre Segunda Guerra para falar de povos caçados na época. Detalhe: todas as nações caçadas têm seus representantes entre os alunos. Existe um tom sarcástico e crítico, mas também não é algo bem estruturado, já que zoar judeus é um tanto quanto errado, ainda mais partindo do cara branco.

Porém, contudo, entretanto… Toda a história de Devi gira em torno da sua terapia, cuja profissional é afrodescendente e cheia de curvas. Nas sessões, ela foge do assunto paternal e das situações que a colocam de “frente” com o seu pai. Existe um movimento interno, até espiritual, onde do seu jeito ela tenta superar a perda do pai. Com isso, Devi se julga pronta para as peripécias sexuais. Algo do tipo: “Já superei a morte do meu pai, eu tenho 15 anos, tá na hora de transar…”.

Para piorar, Devi não tem muito respeito pela terapeuta e toma liberdades um tanto quanto erráticas, do tipo questionar a profissional sobre ela ter um encontro e a Devi não conseguir transar com o gostosão do colégio. Ela é indiana e magra, né? Enfim…

Tá… E?

Alem disso tudo, sua viúva mãe não consegue superar a perda do marido e as tradições indianas parecem ser um caminho melhor para a família do que a vidinha McDonald’s e Starbucks, e isso coloca os planos de Devi na berlinda, levando a jovem à viver ritos tradicionais do hinduísmo em um episódio que só serve para firmar que ela não liga mais para as tradições e que a viúva não é bem vista no rolê entre as mulheres.

É tudo muito confuso!

Entendemos o sarcasmo, a leveza para lidar com os assuntos mas, sinceramente, Eu Nunca…, apesar de divertida, entra para o hall das séries teens que querem ser notadas pela inclusão, mas não carrega peso dramático e bons argumentos. Sex Education, por exemplo, é uma produção cujos temas adolescentes são seriamente debatidos, expostos e desenvolvidos. Os adultos não são caricatos e as piadas sujas e sarcásticas são naturais e não andam na berlinda da ofensa.

No final do dia chega a ser errado falar mal de Eu Nunca…, rola um sentimento de culpa. Se este era o propósito, ok. O objetivo aqui também é fazer você amar Devi, a jovem indiana estranha e inteligente que ninguém no colégio quer comer. É nesse tom agressivo que você se encanta pela personagem. Então, de novo, é fácil declarar abertamente que a série é boa quando se tem uma arma da inclusão apontada para a sua cabeça.

Então, pode respirar tranquila Mindy Kaling, queremos a segunda temporada. Ou não.